Colunista InfoMoney: Política monetária e preços das commodities

Bancos centrais ao redor do mundo direcionam olhares para inflação, cujo mote está nas commodities
Um dos objetivos de um banco central (BC) é garantir a estabilidade dos preços de uma economia. A inflação (aumento geral dos preços de bens e serviços) corrói o poder de compra do consumidor e cabe ao BC evitar que isto ocorra.

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A regra de Taylor, criada por John B. Taylor, pode ser uma evidência de que os BCs estão não somente preocupados com o crescimento econômico, mas também com a inflação. Tal regra é mais um instrumento para decidir o patamar de taxa de juros de uma economia, que é estipulada pelo banco central. De maneira simplificada, a regra de Taylor é uma equação em que os juros são função da inflação e do PIB.

A busca dos condutores da política monetária por inflação baixa ao longo das últimas três décadas vem apresentando resultados bastante satisfatórios. Ao se observar a evolução da variação média do nível geral de preços entre 1980 e 2008 verifica-se que os bancos centrais conseguiram uma grande vitória. Entre 1980 e 1989, na média, a preço anual ao consumidor subiu 15% ao ano. Entre 1990 e 1999 os preços subiram mais, em média, ficando em torno de 19% ao ano. Mas de 2000 a 2008 houve uma forte inversão, e o valor dos produtos adquiridos pelo consumidor subiram, em média, 4% ao ano.

“Commodities são matérias-primas de produtos, logo possuem poder de elevar os preços de uma cadeia

A política monetária pode não ser a única explicação para a diminuição do nível médio da inflação na década de 2000. Os produtos – das mais variadas espécies – que compramos hoje em dia têm uma origem em comum, a China. Argumenta-se que os preços de eletroeletrônicos, componentes de computador, autopeças, lápis, borrachas, cadernos, artigos de vestuário, instrumentos musicais, dentre outros milhares de produtos que são construídos na China, onde a mão-de-obra é abundante e barata, não há encargos trabalhistas e ainda se utilizam de uma taxa de câmbio depreciada, tiveram um impacto nada irrelevante sobre o poder de compra do consumidor em todo o mundo. Porém, em que pese esse efeito-China, não há como negar o importante papel dos bancos centrais.

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Dentre as muitas variáveis que são acompanhadas de perto pelos economistas, estão as commodities agrícolas, metálicas e de energia. Isto porque, por serem matérias-primas de diversos produtos, possuem poder de elevar os preços de uma cadeia. Por exemplo, a alta do preço do petróleo afeta não somente o preço da gasolina, mas também de outros itens, como embalagens plásticas e o batom, que fazem parte do dia-a-dia do consumidor. Assim, repiques no preço do petróleo podem “contaminar” o valor dos insumos da indústria, levando este a repassar a alta para o consumidor.

Os preços das commodities agrícolas estão suscetíveis a choques climáticos e por ciclos também, e são levados em consideração pelos economistas de um banco central. Por exemplo, talvez a alta de preço do trigo, que afeta o valor do pão, seja fruto da quebra de safra em uma região importante. Se este for o caso, sabe-se que, no ano seguinte, a safra poderá voltar ao normal, normalizando as condições entre oferta e demanda, levando os preços à estabilidade, não havendo necessidade de atuação da política monetária.

Mas em 2007 e 2008, a persistente alta dos preços do milho, soja, açúcar e petróleo não eram oriundos de um choque aleatório. A utilização do milho como combustível nos Estados Unidos (além do voraz apetite chinês por commodities) gerou um grande desequilíbrio entre oferta e demanda mundial de milho voltado para a indústria de alimentos. Como resultado, houve uma alta generalizada, que foi parcialmente compensada pelos ganhos de produtividade da mão-de-obra em alguns países. Como não havia perspectiva de normalização, os bancos centrais começaram a acompanhar bem de perto a evolução dos preços das commodities.

Em dezembro de 2008, apesar da crise financeira já incrustada em toda a economia global, em seu relatório de inflação, o Banco Central Europeu havia deixado explícito sua preocupação com a possibilidade dos preços das commodities voltarem a subir.

A partir de 2010, com a recuperação da economia global, talvez as commodities não sejam novamente um pé no sapato dos bancos centrais, mas no médio prazo, o cenário pode ser diferente.

Chau Kuo Hue é economista e escreve mensalmente na InfoMoney.
chau.hue@infomoney.com.br