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As forte perdas registradas nas bolsas norte-americanas, sobretudo na Nasdaq, nos últimos pregões foram motivadas pelo temor dos investidores quanto ao cenário macroeconômico dos Estados Unidos. De fato, os últimos dados divulgados mostraram que por um lado a economia se encontra em forte desaceleração e por outro apresenta sinais de inflação, evidenciados pelo forte aumento de preços em janeiro, tanto ao nível do produtor como do consumidor. Os efeitos de um cenário de queda do ritmo de crescimento da atividade econômica, sem a possibilidade de cortes nas taxas de juros devido ao temor inflacionário afetam sobretudo as empresas de tecnologia, cujas ações embutem no preço um forte potencial de crescimento, o que pode não se concretizar no novo cenário.
A forma mais comum de avaliação das empresas no mercado norte-americano é a do fluxo de caixa descontado. Segundo esta metodologia , os resultados futuros da empresa são projetados e descontados utilizando uma taxa de desconto, que é função, entre outras coisas, do risco da empresa. No caso das empresas de tecnologia, as taxas de crescimento das receitas e lucros utilizadas pelos analistas são bastante agressivas, o que assume a continuidade de um crescimento acelerado para as empresas do setor nos próximos anos.
Entretanto, o novo cenário macroeconômico dos E.U.A. pode frustrar estas expectativas. Os dados do PIB norte-americano referentes ao quarto trimestre do ano passado mostram que o componente do PIB que registrou maior desaceleração foi o de investimentos totais, que, excluindo os gastos em construção civil, caiu 1,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. Mais dramática foi a redução nos investimentos em hardware e software, que caíram 4,7% no período, após terem crescido 5,6% no trimestre anterior. São estes os dados que começaram a afetar os balanços das empresa de tecnologia no último trimestre do ano passado e, dependendo do comportamento da economia dos E.U.A. neste ano, podem causar fortes ajustes nos resultados, e consequentemente, no mercado de ações.
Caso o cenário contemplado pelo Fed, de crescimento da economia norte-americana entre 2,0% e 2,5% neste ano, se confirme, as projeções de lucros das principais empresas de tecnologia não devem se alterar de forma significativa. No cenário traçado por Alan Greenspan, a atividade econômica deve começar a se recuperar provavelmente no terceiro trimestre, após o “ajuste de estoques” pelo qual, segundo o presidente do Fed, a economia norte-americana está atravessando no momento. Neste caso, mesmo que as taxas de juros não sejam reduzidas, o cenário para as bolsas, sobretudo a Nasdaq, será possivelmente de recuperação.
Outro cenário seria aquele no qual o hard landing tão temido realmente ocorra, e a economia americana feche o ano de 2000 com taxa de crescimento, no melhor dos casos, próxima a zero. Neste caso, a expectativa é de que os investimentos acumulem uma taxa de crescimento negativa no ano, após o que muitos consideram como crescimento acima do sustentável nos últimos anos: 15% em 1998, 14,1% em 1999 e 13,6% em 2000. Caso este cenário se confirme, a perspectiva para as ações da Nasdaq é bastante negativa, sobretudo para aquelas empresas que têm crescido a taxas mais aceleradas nos últimos anos.
A tabela abaixo detalha o crescimento trimestral nas vendas de seis grandes empresas norte-americanas ligadas ao setor de tecnologia nos últimos trimestres: Microsoft, Intel, Cisco, Oracle, Sun Microsystems e Lucent. As cinco primeiras foram escolhidas por serem as maiores empresas componentes do índice Nasdaq 100 quando medidas por valor de mercado, enquanto a Lucent representa um setor no qual a desaceleração da economia já foi fortemente sentida no quarto trimestre de 2000: equipamentos de telecomunicações. Com o intuito de evitar a forte volatilidade entre diferentes trimestres, as taxas utilizadas representam a variação das vendas anualizadas, ou seja, somando-se as vendas acumuladas nos quatro trimestres anteriores.
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Empresa
I/00
II/00
III/00
IV/00
I/01
II/01*
Microsoft
6,03%
4,38%
4,85%
0,17%
1,81%
2,02%
Intel
15,25%
5,13%
4,41%
1,47%
N/A
N/A
Cisco
10,84%
11,21%
11,74%
12,90%
13,74%
11,11%
Oracle
2,67%
2,93%
3,97%
4,44%
2,74%
3,24%
Sun
5,39%
6,04%
7,95%
10,39%
12,08%
8,86%
Lucent
-5,80%
11,55%
4,07%
0,99%
-6,58%
N/A
* Trimestre fiscal de cada empresa
Apesar da forte expansão do setor de Internet, é difícil acreditar que as atuais taxas de crescimento trimestrais da Cisco, na faixa de 11%, possam ser mantidas dentro de um cenário de forte desaquecimento da economia norte-americana. Os efeitos desse cenário sobre o preço de suas ações pode ser desastroso, sobretudo para uma empresa que negocia com uma relação preço/lucro acima de 60 vezes – muito acima inclusive do registrado por empresas comparáveis (Oracle e Intel na faixa de 20x, e Microsoft e Sun ligeiramente acima de 30x).
O caso da Cisco exemplifica que ainda existe muito espaço para novos ajustes na Nasdaq, caso o cenário de hard landing se confirme. A tendência dos investidores é a migração para outros ativos, inclusive ações de setores mais defensivos, que podem representar uma boa alternativa de investimento mesmo em um cenário de deterioração da situação macroeconômica. O efeito negativo sobre o mercado brasileiro pode ser substancial, sobretudo para ações de alguma forma ligadas à tecnologia, como telefonia celular. Porém, ainda é cedo para prever tal cenário. Existe boa chance de que o cenário esperado pelo Fed se concretize, o que evitaria um novo ajuste no mercado acionário. O importante agora é acompanhar de perto os indicadores de atividade econômica norte-americana, e seguir com cuidado qualquer profit warning, ou divulgação de resultados por parte das gigantes de tecnologia. Estes números nos dirão o que está por vir.