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Apesar do primeiro corte de juros em três anos, a Bolsa brasileira foi na contramão das expectativas no mês passado, caindo mais de 5%, puxada pela saÃda em peso de investidores estrangeiros. Conforme dados da B3, o estrangeiro sacou mais de R$ 13,2 bilhões, na maior retirada mensal registrada em 2023.
Para a estrategista de ações da XP, Jennie Li, a saÃda de recursos estrangeiros, no mês de agosto, porém, pode ser considerada mais como um movimento de ârealização de lucroâ, do que algo âestruturalâ, de debandada de investidores estrangeiros do Brasil, por conta de fundamentos que tenham se alterado.
âContinuamos vendo potencial de mais entradas (de recursos estrangeiros) ao longo dos próximos meses, pelo resto de 2023â, analisa Jennie. Ela aponta que esse âretornoâ deve se dar por conta das condições macroeconômicas âmais favoráveisâ, sobretudo na comparação com o inÃcio de 2023.
Por exemplo, a própria taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) vem surpreendendo, trazendo um movimento de revisão das projeções de aumento neste ano. Além disso, as perspectivas de inflação vem melhorando, ancorando a queda da taxa Selic.
Estrangeiro em alta
Mesmo com essa maior saÃda mensal, em agosto, o dinheiro gringo vem ajudando â e muito â a puxar os ganhos da Bolsa neste ano. O Ibovespa sobe, em 2023, quase 7%.
Do total de recursos do mercado secundário da B3, o saldo lÃquido positivo de estrangeiro fechou de janeiro a agosto positivo em R$ 11,6 bilhões, bem acima dos ingressos lÃquidos de investidores individuais, de R$ 5,5 bilhões.
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Em contrapartida, o institucional sacou R$ 27,8 bilhões em oito meses. Em agosto, curiosamente, o saldo de institucionais ficou positivo em R$ 5,4 bilhões, à frente, inclusive, dos individuais, com mais de R$ 4,6 bilhões.
âA pessoa fÃsica e o institucional têm estratégias de alocação diferentes e uma tendência mais sólida em alocar recursos, incluindo na renda variávelâ, diz Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, em relação ao movimento de agosto.
Portanto, se o estrangeiro aproveitou o mês passado para embolsar lucros â lembrando que, entre 23 de março e 25 de julho deste ano, o Ibovespa saltou quase 30%, saindo dos 96,9 mil pontos para 112,8 mil pontos â, agora foi a vez do institucional e da PF entrarem, e se posicionarem para frente.
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Para Lima, apesar dessa saÃda em agosto, a aposta é de que os estrangeiros retornem à s compras de ações brasileiras, já que âas empresas estão com múltiplos completamente atrativosâ.
Uma amostra desse retorno se deu no primeiro pregão de setembro, quando a Bolsa subiu 1,86%, com o ingresso lÃquido de R$ 1,125 bilhão de dinheiro gringo. Isso já melhorou o saldo acumulado em 2023 para 12,727 bilhões.
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Real valorizado e menor prêmio de risco
Enrico Cozzolino, head de análise e sócio da Levante, aponta ainda como fatores para a recente saÃda do gringo o movimento de valorização do real. A moeda americana chegou a se aproximar dos R$ 4,70, antes de voltar a beirar os R$ 5.
Assim, a Bolsa acabou ficando âmais caraâ, tornando-se menos atrativa ao estrangeiro. No mais, o próprio fato de o Ibovespa estar acima dos 120 mil reduziu âprêmio do risco retornoâ para o gringo.
Junto com esses fatores, houve a preocupação, entre os investidores, com risco fiscal, em meio à entrega do orçamento 2024 e preocupações com o atingimento do déficit zero, bem como o impacto da MP que pretende tributar a distribuição de JCP.
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Sem contar, é claro, com o movimento de queda das bolsas em NY, com investidores migrando para a renda fixa, em meio ao cenário de maior aversão ao risco no exterior.
Cenário mais favorável e Bolsa barata
Apesar de todos os percalços que o investidor enfrenta, a estrategista da XP pondera que há aspectos positivos a favor do Brasil. Entre eles, o próprio fato de o corte de juros ter vindo antes, entre as economias emergentes.
Ademais, os paÃses desenvolvidos estão com nÃveis de juros restritivos, ainda com o debate sobre se o ciclo de alta acabou ou não. Nos EUA, por exemplo, eventuais novas alta de juros não estão totalmente descartadas pelo Federal Reserve.
Por fim, pesa a favor, o próprio valuation da Bolsa brasileira. Jennie pontua que os múltiplos do Ibovespa â de preço sobre lucro (P/L) â ainda estão bem descontados, em relação à sua média histórica.
âO Ibovespa está sendo negociado a um P/L de mais ou menos 8 vezes, frente à uma média de 11 vezes dos últimos 15 anos. Já o S&P500 está com um P/L ao redor de 18,19 vezesâ, explica.
“Então, o Ibovespa segue bem atrativo ao investidor estrangeiroâ, conclui.
