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Transparência na relação entre influenciadores e instituições financeiras é um avanço importante para o investidor

As novas exigências são uma adaptação da nossa autorregulação à nova dinâmica na oferta de serviços e produtos de investimentos
Por  Zeca Doherty -
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Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

O aumento do número e da audiência dos influenciadores digitais de finanças, os chamados finfluencers, estabeleceu uma nova dinâmica na cadeia de distribuição de produtos de investimento, com a maior democratização de informações sobre esse universo. Apesar de positiva, essa popularização traz desafios. Afinal, como separar o joio do trigo e garantir que o investidor tenha acesso a conteúdos claros, confiáveis e de qualidade para tomar a melhor decisão sobre como aplicar seu dinheiro? Como assegurar que ele não caia em promessas milagrosas de rendimentos?

São perguntas que não têm respostas simples – ainda mais quando falamos de um novo player, que tem amplificado o poder de influenciar decisões sobre investimentos de milhares de pessoas e estreitado a distância entre os brasileiros e o universo financeiro. Só para dar uma ideia, quando publicamos a primeira edição do relatório FInfluence – quem fala de investimentos nas redes sociais, em junho de 2021, 266 influenciadores falavam para 74 milhões de seguidores. A quinta edição do estudo, divulgada em outubro deste ano, mostrou que a audiência deles cresceu impressionantes 140%, somando 176,3 milhões de seguidores, enquanto a quantidade de profissionais ativos quase dobrou, totalizando agora 515.

O aumento da relevância desses influenciadores atrai, além de seguidores, a atenção do mercado, que os usa como pontes para chegar, de maneira mais direta, a investidores e a potenciais investidores. Entre a primeira e a quinta edição do estudo, o percentual de profissionais mapeados que tinham parcerias com instituições financeiras (corretoras, bancos, distribuidoras, gestoras etc.) subiu de 34% para 49%. O crescimento é esperado, afinal, essas relações são um ganha-ganha. As casas enxergam nesses influenciadores uma forma de atingir um público que talvez não alcançassem de outra forma e veem a chance de ampliar a sua base de clientes, enquanto, esses profissionais têm a oportunidade de se aliar a marcas sólidas para a divulgação de seu conteúdo.

Atentos a essas relações e aos prejuízos potenciais que a desinformação pode causar no bolso de muita gente, criamos, dentro da ANBIMA, regras que balizam a contratação de influenciadores para publicidade de produtos. A autorregulação, que entrou em vigor no dia 13 de novembro, empodera o investidor ao dar transparência para essas relações comerciais.

Muitos influenciadores já informavam os seguidores quando faziam uma publicidade, mas isso ainda não era obrigatório. Com as normas, as instituições terão de cobrar que os contratados façam essa comunicação, verbalmente ou por escrito, de forma clara e transparente, dando ao investidor mais elementos para sua tomada de decisão sobre investimento. As normas também ajudam a melhorar os serviços e a qualidade das informações divulgadas ao colocar a instituição como responsável pelo conteúdo contratado e por garantir que o influenciador tenha as certificações necessárias, caso faça uma recomendação ou análise de produtos.

Esse movimento não é exclusivo do mercado brasileiro, e o debate sobre formas de proteger o investidor por meio de parâmetros mínimos está em pauta em todo o mundo, com iniciativas em favor da regulação nos Estados Unidos e na União Europeia. Aqui no Brasil, as discussões começaram em 2022 na ANBIMA, de forma pioneira, com a participação de 20 instituições do mercado. As novas regras foram construídas a muitas mãos e, apesar de serem voltadas apenas para os distribuidores de produtos de investimento, os influenciadores também foram ouvidos. Afinal, as mudanças impactam diretamente a forma como eles são contratados pelas instituições.

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Durante a audiência pública para a aprovação das normas, realizamos encontros individuais com alguns dos nomes mais relevantes deste universo, como Nathalia Arcuri, do canal Me Poupe!, Bruno Perini, do Você Mais Rico, Charles Mendlowicz, dono do perfil O Economista Sincero, e Rafael Ferri, do Café com Ferri. Também promovemos uma reunião aberta com quase 160 influenciadores para explicar as regras e ouvir sugestões. Elas foram bem recebidas por esses players, que entendem que a autorregulação pode ajudar a inibir a atividade de golpistas, ao mesmo tempo que protege os bons profissionais e, sobretudo, os investidores.

Saímos na frente para garantir que as instituições que têm vínculo com a ANBIMA obedeçam a critérios que, além de fortalecerem o mercado, empoderam o investidor ao dar a ele condições de identificar quando uma recomendação ou análise pode vir acompanhada de um conflito de interesse.

As novas exigências são uma adaptação da nossa autorregulação à nova dinâmica na oferta de serviços e produtos de investimentos. Se há alguns anos, a principal forma de se informar sobre aplicações era diretamente com o gerente do banco, assessores de investimento e outros profissionais, ultimamente, os influenciadores passaram a ocupar um espaço de destaque nessa cadeia. Assim, entendemos ser fundamental que os conteúdos produzidos por eles tenham o mesmo zelo e cuidado que as propagandas sobre investimentos veiculadas, por exemplo, na televisão ou folders distribuídos nas agências bancárias.

Para nós da ANBIMA, como representantes do mercado, esta é uma oportunidade de evoluir junto com essas novas relações formadas pela tríade influenciadores, instituições e investidores. É o primeiro passo na direção de vínculos cada vez mais claros e transparentes em que todos ganham, especialmente o investidor.

Zeca Doherty Diretor-executivo da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) desde 2012.

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