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Embora seja a casa de representação do povo, a Câmara dos Deputados é vista, por parte significativa da população, como uma instância distante dos dilemas sociais, quando não como um balcão de negociação entre o Legislativo e o Executivo.
Contudo, de acordo com a cientista polÃtica Argelina Cheibub Figueiredo, isso ocorre porque há, no que diz respeito à relação entre os dois poderes, uma busca incessante de equilÃbrio entre representação e governabilidade.
âPela representação, o Legislativo, na forma da Câmara, tem de refletir as preferências do eleitorado, sendo responsivo a elas. Da parte do Executivo, é preciso garantir um governo que não seja totalmente inepto, ineficaz ou omisso â ele deve fazer polÃticas públicas e depende desta articulaçãoâ, explica a professora do Instituto de Estudos Sociais e PolÃticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj).
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Em entrevista ao UM BRASIL, uma realização da FecomercioSP, Argelina ressalta que a Câmara dos Deputados é sempre a primeira casa legislativa do sistema bicameral a avaliar as propostas encaminhadas pelo Executivo. Com isso, quando um presidente é minoritário, para produzir polÃticas públicas, é preciso formar o que chama de âgoverno de coalizãoâ.
Uma caracterÃstica do nosso multipartidarismo é que o governo depende dessa articulaçãoâ, destaca.
âEles [Câmara e Palácio do Planalto] têm de ter esta integração. Do contrário, não dá. Basta analisar os dois casos de impeachment que tivemos no Brasilâ, complementa a pesquisadora, citando as destituições de Fernando Collor de Mello (1992) e Dilma Rousseff (2016) do poder.
Além disso, Argelina aponta que a Câmara, mesmo sendo a casa que deve representar a população no ambiente polÃtico, à s vezes, precisa tomar decisões sem o aval dos eleitores.Â
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âNão sei se uma discussão para presidente da Câmara pode reverberar para a sociedade. Há um pressuposto de que as pessoas são muito politizadas, mas, na verdade, não sãoâ, avalia.
A cientista polÃtica também argumenta que o fato de a polÃtica nacional ser caracterizada por conter muitos partidos não prejudica a governabilidade.Â
âA situação mais difÃcil para governar é quando há dois partidos radicais, nos extremos. Você tem uma curva bimodal. Quando o meio está esvaziado, é impossÃvel governarâ, frisa.
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Além do mais, observando o comportamento do eleitor, a especialista sinaliza que a sensação de distanciamento da população para com a casa legislativa que deveria representá-la se deve, em parte, à falta de confiança no próximo.
âA primeira coisa que acho que tem influência nisso é que você elege o seu deputado, mas as decisões dependem de mais 500. E as pessoas não têm confiança na capacidade de os outros escolheremâ, pontua.
âOutra coisa é que o Legislativo é muito mais transparente do que o Executivo. Sabemos que o Legislativo também tem conversas de bastidores, mas, na hora de tomar decisões, ele se expõeâ, conclui.