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“No Brasil, houve um tempo
em que a esperança venceu o medo;
depois o cinismo venceu a esperança.
E agora o escárnio venceu o cinismo”
Carmen Lúcia – Ministra do STF
Há alguns dias o Brasil estava alvoroçado com a notícia de que o senador Delcídio do Amaral, líder da bancada petista, e o bilionário André Esteves, ex-CEO do banco de investimentos BTG Pactual e 13º homem mais rico do Brasil, foram presos em flagrante, acusados de tentar atrapalhar e de ser uma ameaça às investigações da Operação Lava-Jato.
Assistir a um político sendo preso assim, em flagrante, era algo bem [mas bem mesmo] raro, ou até mesmo impensável dois anos atrás, quando o país era um lugar tranquilo para os bandidos políticos e a impunidade e injustiça reinavam. Mas desde então, a Operação Lava Jato tem tornado a prisão de políticos uma prática bem comum (eu usaria até a palavra rotineira, para ser mais irônica). Hoje prende um deputado aqui… Amanhã um senador lá… E por aí vai. O brasileiro já não se impressiona mais quando um nome de deputado, senador, ministro, governador, presidente, etc., é citato em delações. A descrença em suas honestidades já domina tanto petistas como tucanos.
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Então essas prisões representam algo muito bom. É o progresso do país no cumprimento da justiça e da lei, não é!? Até seria, mas os brasileiros, em geral, têm dois grandes problemas:
O primeiro é memória curta. Pesquisa realizada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontou que VINTE DIAS após as eleições [e sublinho esse número porque ele é assustador] a maioria dos entrevistados não se lembrava em quem votou para deputado estadual e federal. E só para garantir, o DataFolha fez uma segunda pesquisa e revelou que um terço dos eleitores não se lembra em quem votou para deputado federal após três semanas das eleições. Será que vamos nos lembrar dos 50 nomes de deputados e governadores investigados na Operação Lava-Jato? É… O exemplo do Collor mostra que não. Sofreu um Impeachment, após uma das maiores articulações de esquema de corrupção, tráfico de influência, loteamento de cargos públicos e cobrança de propina já vistas na época, seu nome está envolvido novamente em corrupção na Lava-Jato, mas ele continua lá, firme e forte como senador do Alagoas. Ou seja, não aprendemos a lição. Mas esse primeiro grande problema é consequência de outro grande problema.
O nosso segundo grande problema é o orgulho, a dificuldade que temos de aceitar que um governo que acreditamos que seria bom, na verdade foi o contrário. Temos a necessidade de viver uma constante briga bipartidária. Já dizia Tancredo Neves: “O Brasil dos nossos dias não admite nem o exclusivismo do governo, nem da oposição”. Quem nunca ouviu ou falou algo no mínimo parecido com esses dois exemplos: “sei que no PT tem muita corrupção, mas nunca votarei no PSDB, aqueles ladrões!” E vice-versa: “votei no Aécio não porque eu gosto dele, mas votar na Dilma não dá né?”. É por essas e outras que continuamos elegendo corruptos. E aí pergunto de novo: as prisões da Lava-Jato têm efeito de longo prazo? Os políticos cujos nomes foram citados nas delações premiadas vão continuar comandando nosso país? Se não resolvermos esses nossos problemas, sim.
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Uso o exemplo da Lava-Jato neste artigo, por se tratar da maior operação já feita em todos os tempos, mas temos outras bombas vindo por aí. A CPI do BNDES por exemplo. A série “BNDEsão” está só no primeiro capítulo ainda, mas já mostrou que tem bastante ‘história cabeluda’ pra contar somente com o depoimento da deputada Mara Gabrilli, dado esta semana em interrogatório ao Bumlai – presos na Operação Lava-Jato e amigo íntimo de Lula-, que aguarda julgamento por ser acusado de doar dinheiro de contratos ilícitos da Petrobrás para o Partido dos Trabalhadores.
Além do depoimento da deputada na CPI do BNDES, trouxe-lhes outro caso que escancara a corrupção endêmica: a gravação que levou Delcídio Amaral para a cadeia. Só pra mostrar que contra fatos não há argumentos e para fazer você – caro leitor petista ou psdbista ou qualquer outro fanático partidário que termina com ‘ista’ – que se recusa a acreditar que o atual governo afundou o país na lama, e que o buraco fica muito mais embaixo do que a gente pensa, tomemos a degravação da conversa entre Delcídio, Bernardo – filho de Cerveró -, Edson – advogado de Cerveró – e Diogo – chefe de gabinete de Delcídio – como um exemplo de como a desonestidade está disseminada. Dividirei o diálogo em pequenas cenas, como uma peça de teatro, para facilitar o entendimento e tornar a leitura menos maçante.
Cena 1 – Quem serão os próximos
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Delcidio, Edson e Bernardo especulam quem eles acham que serão os próximos dedurados nas delações:
EDSON – eu acho que dessa vez nessa operação vem uns 50 aí preso… eu acho que é possível que venha pessoal de nível de gerência, operadores, doleiros deve ser isso.
DELCIDIO – José Carlos Bumlai?
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EDSON – Bumlai… Eu acho. Bumlai
BERNARDO – é porque o Fernando fala do Bumlai.
EDSON – O Moreira, essa turma toda vai.
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Personagens da turma toda: José Carlos Bumlai é pecuarista, foi preso junto com Fernando Baiano (delator bomba da Lava-Jato) por pagar propina Cerveró e Luiz Carlos Moreira – ex-gerente da Petrobrás também citado acima -. Bumlai também é acusado de pagar propina para o seu amigão do peito, Luiz Inácio Lula da Silva, para superfaturar suas fazendas em mais de sete milhões de reais na hora da venda.
Cena 2 – Os Traidores
Continuando a conversa eles comentam sobre o advogado de Fernando Baiano, Riera, que acabou atrapalhando os planos deles de soltura de Cerveró, sem contar para ele e que por isso, Cerveró agora corre o risco de ficar até três anos na cadeia. Sacanagem com um cara tão ético como o Nestor, né não gente?
DELCIDIO – o Nestor sabe disso?
BERNARDO – Sabe, sabe… Tá meio puto.
DELCIDIO – Como, mas como rapaz….
BERNARDO – mas também tem coisa que a gente não sabe. O advogado Sergio Riera se atravessou na estória quando a negociação ficou difícil e aí, numa de ajudar fez essa sacanagem.
EDSON – Fez esta sacanagem para ajudar o Fernando. Havia acordo entre o Nestor, ele, Duque e Zelada… Os quatro fariam acordo juntos… Aí o Duque saiu na frente e deixou todo mundo pra atrás. Aí ficamos na expectativa, aí não foi aceita a [delação] do Duque, aí o Fernando foi [delatar], (…) só que deixaram pra trás o Nestor…
Personagens: Jorge Luiz Zelada e Renato Duque são ex-diretores da Petrobrás, presos por receberem propina em contratos do grupo norueguês Subsea7.
(…)
DELCÍDIO: Agora… Com todo respeito, seu pai é boa gente pra caralho e os caras aí passando a perna nele. É um cara bacana, porra, generoso cacete, e os caras dando nó nele, aquela turma que cresceu em função dele…
BERNARDO: É um cara ético, né?
Cena 3 – A Fuga
Os quatro discutem os detalhes da fuga de Cerveró.
DELCÍDIO: Agora Edson, nós temos que seguir [esta estratégia] pra tirar [Cerveró] de qualquer maneira. Temos que tirar não só ele, mas também o Renato, por que não tem santo.
EDSON : (…)se ele sair virá uma nova denúncia e o Moro vai decretar uma nova prisão preventiva. Então eu vou abrir o jogo aqui: é sair e ir embora. Ele aqui não fica! E aí lá eu aguardo a nova denúncia e faço um puta discurso político, entendeu, de tortura e tudo mais…
DELCÍDIO: E aí ele iria pra Espanha. Hum ele tem dupla cidadania, não teria problema nenhum.
Cena 4 – Apelando pros amigos
Delcídio fala sobre a articulação [e que articulação!] com os ministros do STF, presidência da República e do Senado:
DELCÍDIO: Sim. Edson e Bernardo, agora é eu acho que nós temos que centrar fogo no STF. Eu conversei com o Teori [Zavascki] e com o [Dias] Toffoli e pedi pra ele [Toffoli] conversar com o Gilmar [Mendes]. O Michel [Temer] conversou com o Gilmar também, porque o Michel tá muito preocupado com o [Jorge] Zelada. Eu vou conversar com o Gilmar também, porque o Gilmar oscila muito, uma hora ele tá bem, outra hora ele tá ruim e eu sou um dos poucos caras…
EDSON: Quem seria a melhor pessoa pra falar com ele [Gilmar Mendes], Renan [Calheiros], ou [José] Sarney?
DELCÍDIO: Renan conversaria bem com o Gilmar. Mas pelo visto Edson acha que situação do presidente do senado também não está lá muito boa …
EDSON: O Renan…É preocupante a situação do Renan.
Personagens: Gilmar Mendes é Ministro do STF, indicado pelo FHC. Dias Toffoli é ministro do STF e presidente do TSE. Teori Zavascki é também ministro do STF nomeado por Dilma Rousseff. Michel Temer é vice-presidente da República e alvo das investigações sobre corrupção e recebimento de propina no Porto de Santos. Renan Calheiros é presidente do senado e investigado por lavagem de dinheiro. E por último, porém não menos importante, o senador [e ex-presidente da República] José Sarney, apontado como um dos personagens principais da CPI do mensalão.
Cena 5 – A fuga – Continuação
Está parecendo cena de novela: o imigrante ilegal, tentando entrar nos Estados Unidos pelas fronteiras com o México, atravessando o deserto …
DELCÍDIO : Acho que o foco agora é o seguinte: tirar [o Cerveró da cadeia]. Agora, a hora que ele sair tem que ir embora mesmo.
BERNARDO: É. A gente estava pensando em ir pela Venezuela, mas acho que deve sair [da cadeia] com tornozeleira. Acho que o melhor jeito seria um barco… Porque aí chega à Espanha e pelo menos lá você não passa por imigração.
DELCÍDIO: Pois é, mas a ideia é sair de onde de lá?
BERNARDO: Da Venezuela, ou da…
EDSON: É muito longe.
BERNARDO: Mas o pessoal faz, cara! Eu tenho um amigo que trouxe um veleiro agora de…
EDSON: Não, tudo bem, vai matar o teu velho [risos].
BERNARDO: Se pegar um veleiro bom…
DELCÍDIO: A melhor saída pra ele é pelo Paraguai!
BERNARDO: Mercosul…
EDSON: Mercosul não, porque o pessoal tem convenções no Mercosul, aí informação é muito rápida. Ao inverso seria melhor. Ele tá no Paraná, atravessa o Paraguai e vai embora. Eu já levei muita gente por aí. Mas tem convênio quando você sai com passaporte mesmo. Venezuela não está no Mercosul, então a informação é mais demorada, então quanto mais você dificultar, melhor.
Cena 6: Quem Manda na Petrobrás
Delcídio fala sobre a nova diretoria da Petrobrás e a quem ela se subordina por trás dos panos. Ou seja, quem sempre mandou e quem continua mandando na Petrobrás e que hoje diz que não sabia de nada e se sente surpresa toda vez que algum novo diretor é preso por envolvimento em corrupção.
EDSON: Solange Guedes, Jorge Celestino são pessoas da Graça. Estão mandando [na Petrobrás]. O Bendini, tudo articulado com essa turma.
DELCÍDIO: Espera. Só para você ver… O Eduardo Braga é um cara que foi companheiro nosso de Senado. É um cara mandão pra caralho. Na conversa, na reunião com os Ministros, ele não deu um pio. Ou seja, a Petrobrás está sendo comandada pela DILMA. E indiretamente…(risos)… E ontem ficou claro para mim. Outro dia, uma pessoa me perguntou: “escuta aqui! A quem o Bendine se subordina? É ao Ministro ou é à Dilma?”. Inclusive o Pimentel, que é Senador comigo, e é líder do Congresso: “você viu quem é que despacha Petrobras?”, aí ele chegou e falou assim: “a Dilma”.
(…)
DECÍDIO: ele [Cerveró] disse: A Dilma sabia de tudo de Passadena. Ela me cobrava diretamente, etc, etc, etc, ela acompanhava tudo de perto.
(…)
EDSON: Mas ela está correndo risco com esse Celestino tá. (…)
DELCÍDIO: Não vai demorar muito não …
EDSON: O próprio Nestor… O próprio Nestor no anexo fala nele [Pimentel]. É hora desse camarada sair, para não dar problema, porque vai ser escândalo.
Personagens: Eduardo Braga é atual ministro de Minas e Energia. Bendini é atual presidente da Petrobrás e ex-presidente do Bando do Brasil. Jorge Celestino e Solange Guedes são atuais diretores da Petrobrás. Pimentel é atual governador de Minas Gerais pelo PT. Dilma Rousseff dispensa maiores apresentações.
Cena 7: O Banqueiro
DELCÍDIO: Eu fui falar com o André [Esteves] na semana passada. Sentei com o ele e falei: “André, eu acho que é importante agora a gente encaminhar definitivamente aquilo que nós conversamos. Você mesmo estava preocupado, né, me procurou especialmente com relação aquela operação (…) dos postos”. Aí ele disse: “não Delcídio, não tem problema nenhum; Eu estou interessado, preciso resolver isso. Meu banco é enorme, se eu tiver problema com o meu banco eu estou fudido. Eu quero ajudar, quero atender o advogado, a família, etc”. (…) A única coisa que eu achei estranho dele foi o seguinte: porque vocês sabem como banqueiro é foda, né. Ele quer ajuda, ele quer apoio, ele dá apoio, mas onde ele puder enganchar, ele engancha. Foi então que ele me mostrou um paper que ele trouxe, com anotações sobre o Nestor que ele [o Nestor] mesmo fazia, anotações a mão. Eu tinha essa anotação, mas não tinha falado nada que eu tinha o documento.
BERNARDO: Esse é o lance… O que foi vazado pra ele a gente acha que pode ter sido vazado ali de dentro
EDSON: Só pra deixar claro: o que que eu combinei com o Nestor foi que ele negaria tudo com relação a você e tudo com relação ao (…). Tudo. Não é isso?
DELCÍDIO: É isso. Mas Edson, se coloque na minha situação. Vocês conhecem o André Esteves? É um puta gênio, cara! Quando você conversa com ele, ele é uma máquina, uma locomotiva. Aí ele falou “oh Delcídio, porra!”. Como ele chegou a isso [paper] eu não sei te dizer, mas fiquei na minha e fingi que estava surpreso: “Porra André, você conseguiu como?” Você imagina! Você vai conversar com o cara, de repente o cara me aparece com uma porra daquela! Quer dizer, como é que esse cara conseguiu esse paper? [E com as anotações citando meu nome]. Alguém pegou isso aí e deve ter reproduzido. Agora quem fez isso é que a gente não sabe.
As demais cenas
Poderíamos continuar a descrição das cenas e dos diálogos, mas acredito que o leitor já esteja entediado. Acima o que fiz foi somente destacar os climaxs da conversa. Mas para não deixar ninguém de fora da festa, abaixo resumi todos os nomes de políticos, advogados e executivos da Petrobrás citados pelos quatro no restante dessa degravação.
Graça Foster (Ex-presidente da Petrobrás); Pimentel (Governador de Minas – PT); Fernando Collor (Ex-presidente da República, Senador PTB-AL); José Serra (Senador – PSDB-SP); Antonio Palocci (Ex-Ministro da Fazenda e ex-ministro chefe da Casa Civil – PT) pediu demissão por improbidade administrativa; Luiz Edson Fachin (Ministro do STF); Barusco (ex-gerente de serviços da Petrobrás – cuidava dos pagamentos de propinas da Petrobrás ao PT); Tarcísio Secoli (Secretario de Serviços Urbanos – PT); Kakay (Antonio Carlos de Almeida Castro) (Advogado de Roseana Sarney e outros políticos acusados de corrupção – Não defende clientes que fazem acordo de delação premiada) ; Fernando Antonio Guimarães Hourneaux de Moura (Lobista, representante de Dirceu dentro da Petrobrás); Silas (senador); Gregorio Marin Preciado (Epanhol radicado no Brasil, ligado à propina de Pasadena); Paulo Roberto da Costa (Ex-diretor da Petrobás); Armando Sérgio Prado de Toledo (Ex-desembargador investigado pelo CNJ – atual consultor da presidência da Petrobás); Aldemir Bendini (Ex-presidente do BB e atual presidente da Petrobrás).
Grand Finale
Resumo da ópera: se passarmos um pente fino no planalto, no congresso, nas estatais, não sobrará ninguém pra contar história. O governo levou a economia para o abismo e fez do Brasil motivo de piada internacional. Os nossos ex-presidentes, nossa atual presidente e nossos candidatos à presidência, todos suspeitos [e alguns já condenados] por envolvimento com corrupção. E dizer isso não é tentar dar o golpe, não é intriga da oposição, não é inveja e – antes que petistas atirem suas pedras – não, não foi o PT que começou a roubalheira. O PT não inventou a corrupção. Ela vem acumulando desde muito tempo, e acredito que esta degravação deixa bem claro o envolvimento de vários partidos no esquema de propinas. Mesmo essa gravação não sendo prova contra tudo e todos, mesmo que tudo isso não tenha passado de uma ‘fofoca’ do Delcídio com o filho do Cerveró, o importante é percebermos o qual profunda e extensa é essa rede de propinas, abrangendo tudo e todos. Em tempos de corrupção endêmica, o discurso do “ele rouba, mas faz” voltou a fazer sentido. Qual a solução? Bom… Lembra os dois maiores problemas do brasileiro? Que tal começarmos a mudança por lá?
*As opiniões aqui expressas são de inteira responsabilidade da autora
Referências:
– Ministério Público Federal
http://lavajato.mpf.mp.br/atuacao-na-1a-instancia/resultados/a-lava-jato-em-numeros
– Câmara
vídeo Deputada Mara Gabrilli

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