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Eu o vi de longe. Não acreditei. Mas sim, ele vinha em minha direção. E com um pano imundo em uma mão e na outra, um rodinho de borracha. Imundo também! O ano? 2009. O lugar? Adivinhe! Tem três chances de múltipla escolha: Rio de Janeiro, São Paulo ou Londres? Se você não escolheu a última opção, errou. Estava no centro da capital inglesa, indo trabalhar. Sentado no meu carro, estava a caminho da emissora para mais uma reportagem como correspondente.
“Can I clean the windshield?
Traduzindo: posso limpar o para-brisa? A pergunta, com forte sotaque “estrangeiro” revelava que não se tratava de um inglês. Muito menos de algum súdito da Grã-Bretanha. Naquela época, a abertura das fronteiras na Europa já provocava um pequeno “êxodo”. Eram imigrantes pobres, do leste europeu, que seguiam para a Europa rica, a Europa do norte. Um esclarecimento: a Inglaterra pertence e é um dos membros fundadores da União Europeia.
Euro X Libras
No entanto, não adotou o Euro. Manteve a libra esterlina como moeda nacional, mas abriu suas fronteiras para outros cidadãos europeus que faziam parte da tal “União Europeia”. Fronteiras, aliás, que nunca haviam sido abertas anteriormente. Funciona assim: quem é membro da União Europeia tem direito, por meio de tratados e acordos de livre circulação de bens e pessoas assinados entre os participantes, a entrar e sair dos países membros sem mostrar passaporte. Pelo menos funcionava assim: menos fronteiras, menos burocracia, mais consumidores, mais lucros.
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Funcionou
Ao menos por um tempo. A lógica capitalista indicou a chave mas não previu as consequências. Os países ditos de Primeiro Mundo apenas se esqueceram de uma pequena coisa: o resto do mundo. Lembro que li artigos fantásticos sobre a força e a capacidade de negociação do bloco europeu “unido”. Todos querem vir para cá, estampou um jornal importante. A Europa unida ameaça o poderio norte-americano, bradou outro. Todo sistema capitalista tinha absoluta certeza de essa era a solução mágica. Todos vislumbraram apenas os gordos lucros.
Sabedoria popular
Como diz o ditado popular, se esqueceram apenas de combinar com os “russos”. E também com o Oriente-Médio, com a África, com a Ásia, enfim, com todo o resto da moçada que também queria e precisava tirar uma casquinha . A UniãoEuropeia então, viveu feliz e rica por poucos anos. Mas como concentrou (ou seria sugou?) praticamente toda a riqueza do continente europeu para a tal da ‘União”, passou a olhar exclusivamente para seu umbigo burguês e bem nutrido. O resultado vemos agora. Milhares de pessoas abandonando suas terras, suas culturas, suas crenças em busca de vida. Sim, é tudo o que querem. Poderem continuar vivos. Poderem ter trabalho. Poderem alimentar suas famílias.
Velocidade da luz!
E pensar que tudo isso aconteceu em um ritmo frenético. Fico absolutamente impressionado com a rapidez com que as coisas mudam de uns anos para cá! Depois que surgiu a internet, então é zap zap! É como aqueles sucessos instantâneos, tipo “beijinho no ombro”. Só que no caso da Europa, como esqueceram de dar um “beijinho no ombro” dos primos pobres, agora terão que “abaixar até o chão”, tipo aquelas danças da boquinha da garrafa. E olha que, pelo gargalo desta garrafa, está difícil passar tanta gente. Milhares de refugiados entram diariamente na Europa vindos de países esquecidos pelos até agora dono do jogo. A Alemanha, por exemplo, acabou de declarar que vai fechar algumas fronteiras. “Temporariamente”, afirmaram as autoridades louras de olhos azuis, até que a situação se normalize. A pergunta que fica é: se normalize para quem cara pálida?
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Refugiado tentando chegar ao norte da Europa | Crédito: Divulgação

Refugiados diferenciados grande parte tem estudo, religião própria e educação superior | Crédito: Divulgação

Milhares morrem ao tentar atingir a Europa pelo Mar Mediterrâneo | Crédito: Divulgação