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O triste fim do carro eletrificado no Brasil

Medida do governo deverá retroceder em alguns anos (ou até décadas) a eletrificação dos veículos elétricos por aqui
Por  Raphael Galante -
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Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

Caros leitores, digníssimas leitoras,

Desde que a teoria do astrônomo e matemático Nicolau Copérnico rompeu com a visão geocentrista do Universo, em que a Terra gira em torno do sol e não o contrário, um leque de infinitas possibilidades se abriu!

E, apesar do mundo girar, no Brasil as coisas “capotam”!

Na semana passada, o governo federal aproveitou para jogar água no chopp da galera do setor automotivo! E foi no melhor estilo “cunhado folgado” de ser, aquele que chega na sua casa para o churrasco de domingo trazendo um packzinho de Bavaria, enquanto ele acaba com as suas “Stellinhas”.

Mas o que foi decretado?

O governo decidiu que o Brasil deverá retroceder alguns anos (ou até décadas): vamos brecar a eletrificação dos veículos. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a alíquota do Imposto de Importação (II) deverá ser de 35%.

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O “mais-melhor-de-bom” é que essa medida veio de um “Ministério do Desenvolvimento”.

Mas o que disse o ministério?

Essa medida “visa desenvolver a cadeia automotiva nacional, acelerar o processo de descarbonização da frota brasileira e contribuir para o projeto de neoindustrialização do país, cujas bases são a inovação, a sustentabilidade e o fortalecimento do mercado interno, com geração de emprego e renda”.

Segundo o ministro da pasta e vice-presidente: “Temos de estimular a indústria nacional em direção a todas as rotas tecnológicas que promovam a descarbonização, com estímulo aos investimentos na produção, manutenção e criação de empregos de maior qualificação e melhores salários”.

Nota do estagiário: conversa para boi dormir! É a lorota da lorota!

Eles, o (des)governo, estão usando uma medida antiga para tentar resolver um problema, esperando um resultado diferente. Em resumo, o pessoal “dilmou” e copiou o fracassado Inovar-Auto, mas com roupagem diferente. No programa de 2012, o objetivo não implícito era bater nas chinesas que estavam chegando, como JAC e Chery – e a própria Nissan. Elas importavam uma quantidade gigantesca de carros do México, e meteram uma sobretaxa de 30%. Com isso, várias marcas morreram e outras nem tanto… a JAC se encontra na UTI, a Chery ganhou sobrevida com o grupo CAOA e a Nissan teve uma queda nas vendas de 26% no primeiro ano do programa, contra um mercado que retraiu 1,5%.

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O que o (des)governo fez agora foi colocar uma barreira de entrada de novos produtos a fim de garantir o bônus e a PLR dos executivos das montadoras e acionistas.

Poderíamos imaginar que o Brasil seria um “hub” para exportação de veículos, principalmente para a América do Sul. Mas isso não é a realidade da nossa planta fabril. Na média dos últimos cinco anos, apenas 17% do que é produzido é exportado. Ou seja, a indústria automotiva brasileira é para atender a demanda local.

Como fato comparativo, por exemplo, o México, em 2022, consumiu 1,134 milhões de veículos e produziu 3,509 milhões. Enquanto nosso parque automotivo industrial exportou 20% do que produziu, no México esse percentual é quatro vezes maior.

O ponto central é que o consumidor brasileiro mudou e ficou mais exigente! Ele quer coisa boa (motorização) e tecnologia – e paga por isso! Se há duas décadas as importações correspondiam por 5% das vendas, hoje ela é três vezes maior.

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Quando fazemos uma conta simples de Saldo Líquido entre exportações e importações, percebemos o quão pífia é nossa indústria.

E a conta do gráfico acima é apenas da diferença de carros, sem considerar o valor monetário dos veículos. Aí, provavelmente entraríamos numa conta deficitária. É como se a gente exportasse o grão do café e importasse a capsula da Nespresso.

Em nenhum lugar decente um aumento de impostos dessa magnitude irá incentivar a indústria local a ser mais eficiente, seja em motores, processos ou no desenvolvimento de novos veículos. Muito menos irá incentivar a exportar mais.

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Vide a Ford, que continua operando no Brasil, mas decidiu parar completamente de produzir aqui. Preferem produzir na Argentina (?) do que aqui.

Na real, em nenhum momento do documento publicado pelo MDIC foi mencionado qualquer tipo de incentivo/apoio para as exportações. Ele aponta que o aumento será escalonado, que haverá cotas e blá-blá-blá…

Mas o estrago, para entrarmos de vez num mundo eletrificado, ficará para uma próxima.

E qual vai ser o tamanho da encrenca?

Fizemos um simulado. Como a medida, na visão do estagiário, foi para bater forte nas marcas chinesas (BYD e GWM), qual será o impacto para elas?

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Imaginando o preço do GMW HAVAL H6, na casa de R$ 215 mil, e do BYD Song2, por volta de R$ 230 mil, e que eles continuem com preço/custo estável nos próximos 30 meses, o preço dos veículos (numa média ponderada considerando as cotas) seguirá essa trajetória:

O grande ponto aqui, além do preço, é que as marcas estão em processo ascendente de vendas. Uma GMW está vendendo em média 1,5 mil carros/mês. Uma BYD, por volta de 2,5 mil carros/mês. O modelo matemático aponta que o volume mensal das marcas passará para mil carros/mês para a GMW e de 1,7 mil carros/mês da BYD, no final das cotas e com o imposto na sua alíquota máxima. Ou seja, queda nas vendas entre 35% a 40%, quando o imposto ficar full.

Lembrando que consideramos que o preço (custo) do veículo ficará estável nos próximos 30 meses (o que não será a realidade). Então, o tombo delas será muito maior.

Por fim, vale lembrar que o MDIC é o Ministério da Indústria e Comércio. E, no comércio, a gente tem umas duas centenas de empresários brasileiros, que investiram alguns milhões para montar uma concessionária da marca (GMW ou BYD) e estão vendo o seu investimento começar a naufragar…

E você sabe quanto a GMW e BYD vão gerar de Imposto de Importação para o governo brasileiro? Ao final dos 30 meses, será na ordem (estimada) de R$ 3,2 bilhões. Guarde esse número.

Lembra-se que no começo do texto eu falei que no Brasil o mundo não gira, ele capota? Então…

O Senado Federal fez uma alteração na Reforma Tributária para prorrogar até 2032 (era para encerrar em 2025) o regime automotivo do Nordeste. Com isso, impostos como o IPI e parte do ICMS não precisam ser recolhidos pelas montadoras instaladas na região.

Lá no Nordeste tem a fábrica da Jeep (que é mais uma fábrica de dinheiro do que de carro) e, segundo estimativas, essa fábrica pode se beneficiar por volta de R$ 5 bilhões POR ANO com esses subsídios.

Gente… o (des)governo voltou com uma alíquota de 35% de Imposto de Importação para carros eletrificados e tudo que ela arrecadar em 30 meses não vai nem cobrir o subsídio que ela dará em um ano na fábrica da Jeep.

Meu… fico só pensando nos chineses da BYD e GWM que pensaram que iriam “tankar” o Brasil e estão percebendo que o “Bostil é intankavel”.

Olhando mais friamente para o mercado de carros eletrificados, infelizmente, a grande conclusão que a gente tende a fazer é uma analogia com a obra de Lima Barreto: “O triste fim do carro eletrificado no Brasil”.

E aí, o que achou? Dúvidas, me manda um e-mail aqui.

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Raphael Galante Economista, atua no setor automotivo há mais de 20 anos e é sócio da Oikonomia Consultoria Automotiva

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