Qual a relação das derrotas na Argentina e na Venezuela com o Brasil?

Se de um lado o continente é marcado por crises econômicas e políticas, por outro, as derrotas na Argentina e na Venezuela e o possível impeachment da presidente Dilma são sintomas claros do enfraquecimento das esquerdas na América Latina. As ideais de direita (liberal ou conservadora), baseadas no livre mercado, redução estatal, foco no indivíduo, independência institucional e respeito ao império das leis ganham cada vez mais força no Brasil e no continente. A alternância de poder e a verdadeira oposição de ideias são elementos essenciais para consolidação de democracias saudáveis no continente.

Alan Ghani

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É curioso como os acontecimentos políticos na América Latina seguem certa sintonia. As vitórias da oposição na Venezuela e na Argentina podem representar o fechamento de um ciclo: o fim dos regimes populistas de esquerda na América Latina e o enfraquecimento do socialismo bolivariano no continente. Este ciclo se consolida com a ascensão de Hugo Chávez ao poder em 1998, Néstor Kirchner na Argentina em 2003 e Lula no Brasil no mesmo ano. Posteriormente, Evo Morales em 2006 na Bolívia e Rafael Correa em 2007 no Equador. 

Coincidência? De acordo com o petista José Dirceu, não. Em entrevista, (veja aqui) José Dirceu admite que a chegada das esquerdas ao poder nestes países foi coordenada pelo Foro de São Paulo, entidade fundada pelo PT e o ditador cubano Fidel Castro para instauração do socialismo na América Latina. Teoria da conspiração? Segundo o próprio José Dirceu, não. Mas se ainda restam dúvidas sobre a importância desta organização, vejam aqui e aqui as declarações de Lula e Hugo Chávez sobre a relevância da entidade para a política nacional. 

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Tanto Dilma no Brasil, quanto os Kirchners na Argentina e Maduro na Venezuela fazem parte do Foro de São Paulo por meio dos seus partidos. Todos esses governos, em maior ou menor grau, assumiram o poder com um discurso em pró das minorias e contra a exploração do grande capital.  Estimularam a divisão da sociedade em grupos antagônicos, não raro, rotulando de elitista e fascista todos aqueles que não apoiassem seus governos. Na Venezuela, não apenas destruíram reputações como também chegaram a assassinar oposicionistas.

Altamente beneficiados pela farta liquidez internacional e explosão de choques de commodities (2004-2008), esses governos adotaram medidas assistencialistas para os mais pobres garantindo sua alta popularidade.  Enquanto a economia ia bem, boa parte da população ignorava os escândalos de corrupção cometidos por eles, ironicamente em aliança com o grande capital. Afinal, tudo era justificado em nome de uma “sociedade mais justa”. 

Acontece que o peso da realidade é sempre maior do que as benesses de curto prazo e o discurso das “boas intenções”.  Nenhum destes países adotou medidas capazes de estimular o livre mercado e o setor privado – principal motor da economia na geração de emprego e renda. Ao contrário, a sociedade era expropriada com os altos tributos e inflação (também uma espécie de imposto) para sustentar a explosão dos gastos públicos e bilionários casos de corrupção. O peso da ineficiência culminou em todos estes países com pífia atividade econômica, alto desemprego e elevada inflação, prejudicando principalmente a população mais pobre. No Brasil, por exemplo, a expectativa é de queda do PIB em 3,5%, na Venezuela 4% e na Argentina variação positiva de 0,5%. A inflação no Brasil gira na casa de 10%, na Argentina 14% e na Venezuela 68%.  O desemprego na Venezuela e no Brasil está em 7,9% e na Argentina 5,9% (fonte aqui e aqui).  

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Essa deterioração da economia foi acompanhada por inúmeros escândalos de corrupção e o enfraquecimento institucional. No Brasil, por exemplo, tivemos o mensalão (criação do Congresso Paralelo), o “Petrolão” (roubos bilionários para financiar o PT de acordo com o ministro do STF Gilmar Mendes), descontrole fiscal, estelionato eleitoral, apoio financeiro para Cuba e Venezuela (aqui) e tentativas de controle da imprensa (veja aqui).

Se de um lado o continente é marcado por crises econômicas e políticas, por outro, mostram que as derrotas na Argentina e na Venezuela e o possível impeachment da presidente Dilma são sintomas claros do enfraquecimento das esquerdas na América Latina. Parte da população começou a entender que por trás de um discurso populista e uma ideologia “bem intencionada” existem grupos que visam se eternizar no poder.  Mais do que isso, essa ideologia vai cedendo espaço para ideias de direita no continente (liberais ou conservadora), baseadas no livre mercado, redução estatal, foco no indivíduo, independência institucional e respeito ao império das leis. A alternância de poder e a verdadeira oposição de ideias são elementos essenciais para uma democracia saudável. Será que a próxima onda na América Latina será liberal/conservadora?

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Alan Ghani

É economista, mestre e doutor em Finanças pela FEA-USP, com especialização na UTSA (University of Texas at San Antonio). Trabalhou como economista na MCM Consultores e hoje atua como consultor em finanças e economia e também como professor de pós-graduação, MBAs e treinamentos in company.