Foto da babá e o pensamento “Tico Santa Cruz”

Existe hoje uma confusão, para não falar num verdadeiro abismo, entre melhorar a vida dos mais pobres e construir uma sociedade sem nenhuma desigualdade de renda – um sonho utópico que só existe na cabeça de artistas metidos a intelectuais que não saíram do estágio da adolescência intelectual. Se não fosse a economia de mercado, a babá da tal foto poderia estar numa situação ainda muito pior. Se ela não tivesse um emprego, viveria do que? O governo iria ampará-la? Tico Santa Cruz iria ampará-la?

Alan Ghani

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Uma foto de uma babá, carregando os filhos de um casal de classe média num carrinho de bebê, deu o que falar nas redes sociais e ascendeu o “debate” sobre um velho e conhecido clichê dos tempos modernos: todos os problemas da sociedade se resumem à “desigualdade social”, causada pela elite branca, “capitalista e opressora”.

Muitos acusaram a manifestação de hipócrita, pois, enquanto um casal de classe média protestava, uma babá cuidada de seus bebês, como se o casal e os demais manifestantes fossem culpados pela vida difícil da babá e, por isso, não teriam o direito de sair às ruas para reclamar do governo. O “argumento” não passa da velha e boa lenga-lenga marxista: a luta de classes, causadora das desigualdades sociais, –  “enquanto os ricos protestavam, a babá negra trabalhava”.

Para quem não tem o mínimo de conhecimento e guia seus argumentos pelas emoções, é seduzindo facilmente pelo clichê adolescente marxista.

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O intelectual Flavio Morgenstern em sua coluna (aqui) chama atenção para o fato de que o estado natural da humanidade é a pobreza. Remédios, computadores, aviões, moradia, luz elétrica e água encanada não são encontrados na natureza, são frutos de criações humanas. Sim, foi o modo de produção capitalista, após a Revolução Industrial, que tem tirado milhares de pessoas da miséria ao longo dos anos. Isso não é uma opinião, é um fato. Ou, será que antes da Revolução Industrial não existia desigualdade social? Não existia pobreza? Quem será que vive com mais conforto: a babá de hoje ou um rei da Idade Média? Para ajudar na resposta, na Idade Média era normal a convivência de seres humanos com ratos, não tinha antibióticos, água encanada, privada e luz elétrica em TODAS AS CLASSES SOCIAIS.

Quem será que mais causa disparidades na sociedade, os empresários que produzem bens e serviços para a sociedade e pagam salários e geram empregos para milhares de pessoas ou burocratas estatais que vivem de recolher impostos daqueles que produzem? Mas é claro que alguém poderia vir com o argumento marxista e dizer que todas as fontes de “injustiça social” advém da exploração do empresário sobre o trabalhador no qual o operário não fica com toda a riqueza gerada pelo seu trabalho (mais valia). 

O primeiro erro deste argumento é acreditar que o empresário é uma pessoa que não trabalha, não assume risco e apenas vive da exploração do trabalho alheio. O segundo erro é não entender, por exemplo, que o trabalho de um operário da indústria automobilística é beneficiado por uma complexa rede produção. Em outras palavras, a mão de obra operária é mais valorizada dentro de uma empresa do que se agisse isoladamente (veja “Revolta de Atlas”). Ou, algum ser humano teria condições isoladamente de fabricar, montar e vender um carro?  Novamente, quem vive melhor: o operário de hoje “explorado” pela indústria ou o artesão da Idade Média, dono do seu próprio trabalho? Será que não nos beneficiamos de trabalharmos justamente para aqueles que criam riqueza para a sociedade?  O terceiro erro  é  acreditar que o governo não explora a sociedade. O pagamento de imposto nada mais é que a “mais valia estatal”, onde somos expropriados, sem escolha, e recebemos muito pouco em troca; ao contrário, nosso dinheiro é alimentado para sustentar CUT, UNE, MST e burocratas corrutos que não produzem absolutamente nenhum valor para a sociedade.

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Não se trata de negar que ainda hoje exista muita pobreza e que a babá da foto não leve uma vida com muita dificuldade. O ponto principal é atribuir sua condição ao mesmo clichê de sempre: a luta de classes e ao “sistema capitalista opressor”, causador de desigualdades sociais – quando na verdade é justamente o contrário, se não fosse a economia de mercado, a babá da foto poderia estar numa situação ainda muito pior. Se ela não tivesse um emprego, viveria do que? O governo iria ampará-la? Tico Santa Cruz iria ampará-la? 

Aliás, uma reportagem (aqui) mostra que a babá leva uma vida muito difícil e tem orgulho do seu trabalho (“A gente tem de [sic] dar valor ao trabalho, independente de usar de uniforme ou não”). A questão central é que qualquer ser humano com o mínimo de valores morais se solidariza com a vida da babá e gostaria que ela tivesse uma vida melhor. 

No entanto, existe uma confusão, para não falar num verdadeiro abismo, entre melhorar a vida dos mais pobres e construir uma sociedade sem nenhuma desigualdade de renda – um sonho utópico que só existe na cabeça artistas metidos a intelectuais que não saíram do estágio da adolescência. 

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O escritor João Pereira Coutinho (aqui) toca num ponto importantíssimo que esclarece a questão: “talvez o problema das nossas sociedades não esteja na desigualdade em si (ao fim e ao cabo, eu [Coutinho] sou mais pobre que Cristiano Ronaldo e ninguém pretende corrigir essa desigualdade) mas, antes, na existência da pobreza”.

“Consequentemente, as políticas de distribuição de renda devem ponderar antes o que é “suficiente” para uma vida digna —e não alimentar grandes projetos utópicos que, ao procurarem a igualdade perfeita, apenas geram o tipo de igualdade que a limitação dos recursos impõe: a igualdade de todos na miséria”.

Mas para a turma da esquerda caviar (Tico Santa Cruz, entre outros), que leva um padrão de vida muito acima da babá e da maioria dos brasileiros presentes nas manifestações, esses argumentos não importam. Ao contrário, para eles, nada melhor que repetir o clichê da “desigualdade social” e culpar o “sistema capitalista opressor” por todos os problemas da sociedade, quando eles mesmos são os mais beneficiados pela economia de mercado. Claro, não poderia ser diferente; eles adoram o socialismo (para os outros), a Lei Rouanet e sua grande babá: o Governo do PT!

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Alan Ghani

É economista, mestre e doutor em Finanças pela FEA-USP, com especialização na UTSA (University of Texas at San Antonio). Trabalhou como economista na MCM Consultores e hoje atua como consultor em finanças e economia e também como professor de pós-graduação, MBAs e treinamentos in company.