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A isonomia entre os gêneros (homens e mulheres) na distribuição de postos e de salários no mercado de trabalho de qualquer país ou região é uma medida concreta do grau de desenvolvimento ou civilização alcançado pelas respectivas sociedades. Quanto mais equilibrada e justa for essa proporção, mais evoluída será a sociedade que a pratica e mais desenvolvida será a sua economia. Habituei-me, de forma natural, com esses valores, por ter vivido em uma família de mulheres muito ativas e de elevado nível cultural. Tenho muito orgulho, por exemplo, da figura da minha mãe, que foi a terceira mulher formada em Engenharia no Estado de Minas Gerais e que sempre trabalhou na profissão até ser compulsoriamente aposentada por idade. Talvez o exemplo familiar tenha sido um dos fatores que levaram a nossa Construtora, MRV Engenharia, a valorizar particularmente a contribuição da mulher engenheira – e de outras profissões – no nosso quadro de colaboradores. Tenho um enorme orgulho de vê-las, numerosas, proficientes e ativas nos nossos canteiros de obras, em funções superiores de gestão e em muitos outros postos da administração do nosso grupo empresarial.
Por conta de tudo isso, estou vendo, com profunda tristeza, a marcha à ré engatada por nosso país, nos anos mais recentes, no que diz respeito à participação justa da mulher no mercado de trabalho.
Ao invés de acelerarmos o passo nesse avanço civilizatório, andamos para trás e perdemos posições que já tínhamos dado como conquistadas (aliás, tardiamente conquistadas). Os dados oficiais e não-oficiais estão apontando para essa situação absurda. Ao final do ano passado, por exemplo, o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou os resultados da Pesquisa “Estatísticas de Gênero” mostrando que cresceu a desigualdade entre homens e mulheres no mercado formal de trabalho brasileiro, embora tenha aumentado a proporção destas últimas na PEA – População Economicamente Ativa e no contingente dos que buscam emprego. No que concerne exclusivamente ao salário, a pesquisa mostra que, em média, as mulheres recebem apenas cerca de 70% do que ganham os homens para o exercício de funções iguais ou semelhantes. Outro estudo, divulgado no Fórum Econômico Mundial, mostra que o Brasil caiu nove posições no ranking de igualdade de gêneros, apenas no último ano (da 62ª posição em 2013, para a 71ª posição em 2014). Ou seja, de uma posição muito ruim para outra pior ainda. Estudos que investigam qualitativamente essa situação no cotejo internacional mostram posições ainda mais desvantajosas para o Brasil e que vêm deteriorando-se progressivamente, com destaque para a proporção de mulheres nas posições de comando, supervisão e direção.
Por paradoxal que possa parecer, alguns exemplos muito positivos vêm da China, país com baixa remuneração geral para a sua mão de obra e que, sabidamente, pratica um regime de trabalho muito mais pesado e duro do que todos os demais emergentes. No entanto, no que diz respeito à participação feminina nos postos de liderança, controle e comando, a China vem alcançando posições invejáveis. Segundo os dados divulgados por Grant Thornton International Ltd. (Business Report, 2013) a China foi, em todo o mundo, o país que apresentou o maior aumento no número de mulheres executivas (incluindo presidentes, vice-presidentes e diretoras) naquele exercício. Enquanto a média global da participação feminina em cargos de liderança é de apenas 24%, na China essa proporção já teria alcançado 51%. No nosso país, essa mesma participação teria caído, em 2013, para menos de 23%, ou seja, para um patamar inferior ao da média mundial.
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Existem muitos outros aspectos, de natureza mais complexa, que não podem ser examinados no espaço restrito deste blog, como, por exemplo, a circunstância de que a promoção à hierarquia superior de gestão das empresas decorre da própria duração das carreiras de cada profissional, que, no caso das mulheres, é diminuída por aposentadorias precoces. Mas esse tipo de detalhe argumentativo não pode empalidecer o verdadeiro objetivo a ser alcançado pelas nossas políticas de Estado e até por atitudes empresariais específicas, qual seja, fazer reverter imediatamente o escorregão dos últimos anos e acelerar a busca de patamares mais civilizados nesta questão.