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Os ‘sentimentos mistos’ ao plano estratégico da Petrobras

Pontos centrais do programa não causaram surpresa, mas busca da estatal por diversificação não é consenso

Felipe Mendes | Rikardy Tooge

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Volta ao passado e investimentos em setores onde não há competitividade clara, nem retorno que justifique. São essas algumas das críticas colhidas com pessoas próximas da Petrobras sobre o ambicioso plano estratégico da estatal de aplicar US$ 102 bilhões até 2028.

Já do lado dos analistas, nenhuma grande surpresa em relação ao que já se especulava – e, ao menos, algum alívio pelo fim das dúvidas em torno do programa.

“O valor não me impressiona, mas, por outro lado, o que impressiona negativamente é a falta de cuidado com o retorno esperado do investimento”, avalia ao IM Business um ex-presidente da Petrobras, que preferiu não se identificar. “Optou-se por investir mais em setores em que o seu desempenho é pior que o do setor privado”, diz outra fonte que acompanha o dia a dia da empresa.

Para essas pessoas, ainda não foi possível saber em quais pontos do plano houve pressão do governo federal para ampliar ou adicionar investimentos. “Não se fala nada sobre Lula. O Jean Paul [Prates, presidente da Petrobras] diz que Lula não fala e não pede nada”.

Mas a avalição é de que a retomada dos investimentos da Petrobras em segmentos non-core, como fertilizantes, biocombustíveis e energias renováveis, tem influência, sim, do governo. O grande problema, apontam as fontes, é que a estatal não é competitiva nesses setores e tende a queimar caixa.

“Se você faz um investimento grande, o que se espera é um retorno elevado. A questão é que a Petrobras vai investir em áreas onde não tem expertise”, diz o executivo, que cita o exemplo do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). “Não gerou 1 real sequer para a Petrobras”.

“A pobreza energética no Brasil é uma realidade inegável, temos que pensar como prover energia acessível”, defendeu Prates, em coletiva nesta sexta-feira (24) para explicar o plano.

Hoje distante do dia a dia da petroleira, Joaquim Silva e Luna, que presidiu a Petrobras entre abril de 2021 e março de 2022, aponta que a ampliação dos aportes em áreas relacionadas a fertilizantes e refino é um risco, mas que a retomada das obras da Refinaria Abreu e Lima, em Ipojuca, no Grande Recife, pode suprir o anseio do governo federal de ter maior controle sobre os preços dos combustíveis. “O projeto é de uma refinaria mais moderna. Melhor avançar com isso a anunciar novas refinarias que demandariam muito investimento e teriam um retorno lento.”

Para os analistas do Itaú BBA Monique Greco, Bruna Amorim e Eric de Mello, os números estavam em linha com o esperado, apesar de poucos detalhes acerca dos investimentos em diversificação. O bom sinal, acrescentam, é que agora os investidores terão uma noção mais clara de como qual será o peso dado pela Petrobras em cada segmento.

Em seu plano divulgado na quinta-feira (23), a Petrobras afirma que o aumento de 31% em seu plano de capex está associado a novos projetos, incluindo potenciais aquisições, ativos que seriam vendidos e voltaram à carteira e à inflação de custos.

Petrobras: estatal divulgou aguardado plano estratégico 2024-2028 (Wagner Meier/Getty Images)

Dos US$ 102 bilhões, US$ 91 bilhões são investimentos definidos e outros US$ 11 bilhões ainda precisam ser aprovados. Os analistas Vicente Falanga e Gustavo Sadka, do Bradesco BBI, lembram que os percentuais destinados a cada vertical são próximos aos do plano estratégico anterior, implementado em 2020. “Desses US$ 91 bilhões, 80% são para exploração e produção (E&P), 13% são downstream, 4% são de transição energética e 3% corporativos”, escreveram.

Dos US$ 11 bilhões ainda em aberto, a expectativa do BBI é de que os recursos possam ser destinados, por exemplo, para a aquisição da fatia da Novonor na Braskem. “[Mas] A maioria dos projetos que acreditamos estão relacionados a instalações eólicas offshore, hidrogênio verde, captura de carbono, entre outros”.

Apesar da maior parte dos recursos estarem destinados ao core business de exploração, a visão é de que a estatal deveria pisar ainda mais no acelerador neste segmento, uma vez que é a única que alia conhecimento técnico e dinheiro para crescer. “A Petrobras tem que olhar para a produção em águas profundas e ultraprofundas, que é onde há vantagens competitivas óbvias. Se ela não fizer isso, ninguém no Brasil conseguirá”, prossegue a fonte.

“Acreditamos que os investidores de longo prazo podem saudar a orientação de capex total, mesmo com a inclusão de iniciativas ainda imaturas. Reconhecemos, no entanto, que pode haver alguma frustração em relação aos números de produção mais baixos e aos modestos dividendos extraordinários implícitos, particularmente entre os investidores de curto prazo”, acrescentaram os analistas do Itaú BBA.