Conheça o homem por trás de uma das small caps mais valorizadas da Bovespa

Anastácio Fernandes Filho chegou em 2006 para ser CEO da Kepler Weber durante crise que quase culminou em concordata; de lá pra cá, ação já subiu quase 200%

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SÃO PAULO – Nem banho de sal grosso, nem “reza brava”: o que mais pode estar faltando para a OGX Petróleo (OGXP3) – agora, OGP (Óleo e Gás Participações) – conseguir dar a volta por cima é credibilidade. Um bom exemplo disso é a Kepler Weber (KEPL3), empresa que, por conta de uma leitura equivocada do mercado, entrou em grave crise que acarretou em pedido de recuperação judicial em 2006. No entanto, a transparência e a boa reputação da companhia no mercado, segundo o CEO (chief executive officer) Anastácio Fernandes Filho, foram fatores fundamentais que fizeram com que a Kepler superasse os problemas e vivesse o ápice de sua história na bolsa 7 anos mais tarde, com suas ações chegando a valer mais de R$ 35,00 em dezembro na Bovespa – o que representa alta de quase 200% em relação aos níveis de 2006.

Apesar das diversas diferenças entre o modelos de negócio e campos de atuação das suas empresas e a impossibilidade de se comparar diretamente as duas histórias com justiça, a experiência da Kepler Weber e toda a bagagem de Anastácio, que também trabalhou na Vale (VALE3, VALE5) por 25 anos, podem ser muito úteis para a petrolífera do grupo EBX. “Nossa atividade é muito diferente. A deles é uma atividade de muito risco. Imagino que é necessário se aprofundar muito para avaliar o que aconteceu de fato lá. Eu trabalhei muitos anos em mineração e pesquisa geológica e de campo de petróleo são muito diferentes. Para fazer isso alavancado, imagino que o risco aumenta muito”, afirma.

O CEO da Kepler reforça a importância dos credores acreditarem na reviravolta da empresa “O que me fez ter sucesso na reestruturação da companhia foi a credibilidade. O Aconteceu com a Kepler o que aconteceria com qualquer empresa que fez um investimento na expectativa do mercado que não veio; isso é perfeitamente compreensível. Agora, o caso da OGX é diferente: uma empresa pré-operacional em uma atividade de muito risco. O mercado apostou em cima de premissas que poderiam não ser confirmadas por questões de pesquisas geológicas”, avalia Fernandes Filho.

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O caso Kepler Weber
Além da credibilidade, o diálogo e a transparência são outros quesitos que o CEO também destaca para o sucesso em uma empreitada de reestruturação corporativa. No caso da Kepler, a primeira coisa feita foi tentar negociar – sem sucesso inicial – com credores e acionistas. “Eu vim para a Kepler, em 2006, em um momento de crise total para tentar salvar a companhia, ajudando-a em sua reestruturação. A primeira coisa que fizemos foi chamar os credores para começar a negociar”, conta ele. Enquanto os bancos jogavam o problema nas costas dos acionistas, estes devolviam o abacaxi aos mesmos credores.

Após a exaustão das ferramentas de aproximação e discussão da questão em mesa, a companhia decidiu entrar com um pedido de recuperação judicial. “Esse pedido causou uma certa surpresa. Apesar de já termos alertado os credores na época, eles não acreditavam que fôssemos fazê-lo. E, quando entramos com o pedido de recuperação, gerou uma oportunidade de voltar à mesa para negociações. E foi o que aconteceu: ao voltar à mesa, as condições de acordo que vínhamos buscando foram viáveis”, conta o executivo. Desta forma, chegou-se a um acordo antes mesmo do juiz deferir o pedido, que resultou na divisão da dívida de R$ 500 milhões entre bancos via ações, emissão de debêntures e entrada de dinheiro de acionistas.

A força e tradição da marca no mercado certamente pesou no sucesso das negociações, com a empresa também se comprometendo a tomar medidas de austeridade para voltar a entregar resultados positivos a quem nela acreditou. “É lógico que crise sempre existe em qualquer segmento, mas o importante é estar preparado para enfrentar uma situação de crise e prever com antecedência o que vai acontecer para poder fazer o contorno da crise com maior competência. A Kepler não pode sair do mercado. A empresa sempre foi muito forte, respondia muito bom com qualidade, solução de armazenagem e não tinha outro para substituir. A necessidade do mercado de ter o padrão de qualidade da Kepler fez com que as coisas acontecessem na retomada de uma forma mão dupla”, ressalta o CEO da companhia.

Apesar de todo o sucesso da recuperação da Kepler Weber, Fernandes Filho faz uma ressalva, alegando que a manobra não vem desacompanhada de efeitos colaterais. “O uso da lei da recuperação judicial é uma prerrogativa legal para salvar uma empresa, o que não significa que, ao usar a lei, não haja aspectos de desgastes, credibilidade, etc. Não tem como se pensar em usar uma legislação dessas e não haver perdas”, alerta.

OGX: diálogo com credores é um sinal?
No dia 27 de novembro, a antiga OGX, hoje OGP, informou via comunicado que retomou as negociações com seus seus credores representantes de mais de 50% do total dos bonds emitidas por sua controlada, OGX Austria GmbH, do qual é devedora solidária – há inclusive rumores de que o acordo deve sair até 15 de dezembro. Na bolsa, as ações da companhia esboçam alguma reação, ao fecharem a última quarta-feira (11) valendo R$ 0,25, o que indica alta de 56% neste mês de dezembro. Contudo, no acumulado do ano, a queda ainda é de 94,29%.

Nos últimos dias, a petroleira do empresário Eike Batista fez uma série de anúncios. Os acionistas da empresa aprovaram na segunda-feira passada mudança de denominação social da companhia para Óleo e Gás Participações. No mesmo dia, foi ratificado o pedido de recuperação judicial da empresa. Além disso, na véspera, a empresa confirmou que entrou em produção seu segundo poço de Tubarão Martelo, localizado nos blocos BM-C-39 e BM-C-40, na Bacia de Campos.

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Embora ainda seja muito pouco para transformar o pessimismo em torno da antiga empresa X em otimismo, é evidente que houve progresso. Ainda é difícil de pensar em uma amenizada nas perspectivas negativas diante de um cenário tão ameaçador. Talvez a única lição que dê para se tirar disso tudo, por enquanto, seja a de que credibilidade é tudo para uma empresa.

Marcos Mortari

Responsável pela cobertura de política do InfoMoney, coordena o levantamento Barômetro do Poder, apresenta o programa Conexão Brasília e o podcast Frequência Política.