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SÃO PAULO – Otimismo com o Brasil em alta com o avanço das reformas estruturais, otimismo lá fora em meio à espera pelos anúncios de Donald Trump sobre corte de impostos e desregulamentação, além da expectativa mais positiva para as principais economias globais. Essa parece ser a combinação perfeita para o que vimos nos últimos dias: bolsa em disparada e dólar em queda (apesar do movimento do real estar descolado da valorização do dólar ante as principais moedas no exterior, isso se justifica diante do otimismo e perspectiva de fluxo no país).
Porém, no médio prazo, há um fator de risco que não deve ser desprezado e que tem o potencial de afetar todo esse cenário benigno, conforme ressalta a LCA Consultores. E ele vem dos próprios EUA. “A política do governo Trump continua a representar o principal elemento externo de incerteza”, afirmam os consultores.
Eles apontam que, nas últimas semanas, as sinalizações do governo norte-americano desviaram um pouco o foco de questões associadas a relações externas e a políticas imigratórias, para passar a colocar em maior evidência temas relacionados a questões fiscais, tributárias e de desregulamentação. “Embora essa discreta mudança de foco venha ao encontro de nossa principal premissa para o cenário norte-americano (e global) de curto prazo – a hipótese de que a política econômica de Trump centrará esforços sobretudo no ativismo fiscal, evitando uma ‘guerra’ com os principais parceiros comerciais dos EUA –, ela não contribui de maneira consistente para diluir as várias incertezas suscitadas pelo novo governo”.
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Há um foco importante de incerteza e que começa a se evidenciar cada vez mais no noticiário especializado, apontam os consultores: trata-se da influência do novo governo na formação do colegiado de política monetária do Federal Reserve – e o risco que ela representaria para a independência da autoridade monetária. Em janeiro, a LCA já destacava que a possível rota de colisão entre a Casa Branca e o Fed poderia entrar no radar dos mercados no começo de fevereiro. “Os desenvolvimentos das últimas semanas reforçaram nossa preocupação com esse foco de incerteza”, afirma a equipe.
A LCA aponta que a decisão do governo de propor um “desmonte” da Lei Dodd-Frank – que reformou o arcabouço de regulamentação financeira em resposta à grave crise financeira global de 2007-2008 – pode ser entendida como um primeiro importante conflito de opiniões entre a Casa Branca e o Fed.
Esse “desmonte”, inclusive, já proporcionou uma “baixa”: Daniel Tarullo, dirigente com direito a voto no colegiado – e que participou ativamente da elaboração do novo arcabouço de regulamentação financeira –, anunciou que renunciará a seu cargo na autoridade monetária norte-americana no começo de abril. “Embora nem Tarullo e nem o comunicado oficial do Fed tenham explicitado as razões para o desligamento, parece claro que ela foi influenciada pela decisão do governo Trump de ‘rasgar’ a Lei Dodd-Frank”, afirmam os consultores.
As expectativas da LCA são de que as divergências avancem cada vez mais ao longo do ano, à medida que o Fed avance no processo de normalização da política monetária norte-americana. “A evolução corrente e esperada para a atividade econômica, o mercado de trabalho e a inflação nos EUA sugere que o próximo aumento de juros não tardará; e a perspectiva que preservamos em nosso cenário base é de que o ritmo de elevação da FED Funds Rate será intensificado ao longo do 2º semestre”.
O depoimento de Yellen ao Congresso na última terça-feira foi em linha com essa perspectiva, ao apontar que “esperar por muito tempo para retirar os estímulos [monetários] pode ser imprudente”, sobretudo em contexto de progressivo estreitamento da ociosidade no mercado de trabalho. Ela ainda reafirmou que há “incerteza considerável” no cenário econômico relacionada a “possíveis alterações na política fiscal e em outras políticas dos EUA”.
Em um contexto com inflação corrente e expectativas inflacionárias se deslocando para cima, o maior ativismo fiscal do governo Trump poderia suscitar uma postura igualmente mais ativa da política monetária, afirmam os consultores. Além disso, poderia recrudescer as críticas que Trump direcionou a Janet Yellen durante a campanha eleitoral, ao acusar o Fed de agir politicamente em favor do governo Obama e da candidata democrata Hillary Clinton.
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“Vale registrar, ademais, que se Trump insistir em práticas protecionistas e anti-imigração, estas poderão também pressionar a inflação de importados e a inflação de salários, que já mostram sinais de recuperação”, apontam.
O mandato de Yellen expirará no final de janeiro de 2018 e, ao que tudo indica, não será renovado. Trump deve indicar o sucessor da chairwoman do Fed e o substituto do vice-chairman Stanley Fischer. Além da presidência e da vice-presidência do Board of Governors, Trump terá a oportunidade de indicar, ainda este ano, outros três diretores – para ocupar as vagas em aberto deixadas pelas renúncias de Sarah Raskin e Jeremy Stein (ambas em 2014) e pela saída recém-anunciada de Daniel Tarullo. “Assim, Trump terá o poder de indicar ao menos cinco dos sete membros do Board Governors (que formam o núcleo do corpo de onze diretores com direito a voto no colegiado de política monetária, sendo que os outros quatro obedecem ao cronograma de rodízio anual entre os presidentes dos doze escritórios regionais do FED)”.
Neste meio tempo, a relação conflituosa entre a Casa Branca e o Fed até o término do mandato de Janet Yellen e as futuras indicações de Trump para o Board of Governors neste e no próximo ano poderiam resultar numa crise institucional na autoridade monetária norte-americana – o que teria consequências adversas duradouras sobre a confiança dos mercados. Trata-se, portanto, de um elemento de risco a ser monitorado atentamente no curto e médio prazos.
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Impacto no Brasil
O cenário base da LCA antecipa que as incertezas relacionadas à relação potencialmente conflituosa entre a Casa Branca e o Fed, bem como outros focos de incerteza, tendem a exercer alguma pressão sobre os mercados de ativos e moedas emergentes na segunda metade deste ano, inclusive sobre os mercados brasileiros. Isso justifica a projeção de câmbio um pouco mais desvalorizado no final do ano. Eles esperam que a divisa americana encerre este ano a R$ 3,35 e encerre 2018 a R$ 3,50. Contudo, até que a persistência desses focos de incerteza produza algum impacto sobre os mercados emergentes, o quadro favorável que tem prevalecido na conjuntura doméstica nos últimos meses poderá se estender por mais algum tempo. “Em que pesem incertezas de natureza política – não apenas no ambiente externo, mas também internamente (com a crise de segurança em alguns estados, a substituição de Teori Zavascki no STF, o desgaste provocado pela Lava Jato e pelo status de ministro concedido a Moreira Franco etc.) –, a evolução da conjuntura doméstica tem sido marcada por descompressão do risco-Brasil e da taxa de câmbio”, apontam. Esse quadro favorável que tem prevalecido também mantém a aberta a janela de oportunidade para que o Copom corte rapidamente a taxa básica Selic. Os analistas da LCA mantêm a perspectiva de que o corte de juros seguirá o ritmo de 75 pontos-base na próxima reunião, mas não descartam uma possível aceleração no passo na próxima reunião nos dias 21 e 22 de fevereiro ou até mesmo na de abril. Assim, por enquanto, o mercado – principalmente o brasileiro – parece estar resiliente a esses sinais de risco. Contudo, o potencial de crise institucional no Fed, que teria consequências adversas duradouras sobre a confiança dos mercados, é um elemento de risco a ser monitorado atentamente no curto e médio prazos.