Lula ou Flávio Bolsonaro: o que muda para o setor automotivo

As propostas dos dois candidatos podem afetar crédito, tributação, indústria e demanda por veículos, mas o resultado dependerá da execução das medidas e do cenário econômico

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Estou no mercado automotivo desde 1978. De lá para cá, acompanhei dez presidentes da República, sete grandes planos de estabilização e seis padrões monetários.

São quase cinco décadas acompanhando como as decisões de Brasília afetam o caixa das empresas e o bolso dos consumidores.

Essa experiência me ensinou a olhar cada eleição a partir da mesa de negociação: quanto vale o usado na troca, qual entrada o cliente consegue dar e quanto cabe na prestação. É por esses caminhos que a política econômica chega ao showroom.

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Uma vitória de Lula sinaliza continuidade do apoio à renda e à produção nacional. Uma vitória de Flávio Bolsonaro abre espaço para mudanças fiscais e regulatórias. O desempenho de 2027 dependerá da execução dessas agendas, do Congresso e do ambiente internacional.

O ponto de partida

O Focus divulgado em 28 de setembro reúne expectativas de crescimento do PIB de 1,41%, inflação de 4,31% e Selic de 12% ao fim de 2027. São projeções de mercado anteriores à eleição, sujeitas a revisão. A combinação sugere expansão econômica limitada e financiamento ainda caro.

O tamanho desse obstáculo aparece numa simulação: financiar R$ 80 mil em 48 parcelas custa aproximadamente R$ 2.608 mensais a 2% ao mês e R$ 2.350 a 1,5%, sem IOF, tarifas ou seguros. São R$ 258 de diferença. As taxas são ilustrativas; a conta mostra quanto o crédito interfere na compra.

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Se Lula vencer

O programa de Lula propõe manter a valorização do salário mínimo, ampliar investimentos em infraestrutura e fortalecer a política industrial e a descarbonização. Também assume compromisso com responsabilidade fiscal e inflação controlada.

Minha hipótese central é de continuidade dos investimentos industriais e sustentação da procura por veículos, com expansão desigual entre segmentos. Renda maior pode favorecer motos e usados de menor preço; obras podem estimular comerciais leves e caminhões. A compra efetiva dependerá da capacidade de pagamento e da aprovação de crédito.

Para fabricantes e fornecedores, a continuidade dos incentivos oferece previsibilidade. O Mover, já existente, prevê R$ 4 bilhões em créditos financeiros em 2027, segundo o MDIC. É um instrumento relevante para inovação e eficiência energética, cuja execução deve ser acompanhada qualquer que seja o vencedor.

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O risco é ampliar estímulos sem demonstrar como serão financiados de forma sustentável. Se crescer a percepção de desequilíbrio fiscal, o câmbio pode se depreciar e os juros futuros subir. Componentes ficam mais caros, o estoque pesa no caixa e parte do ganho de renda desaparece na prestação.

Com credibilidade fiscal, esse cenário melhora: a continuidade industrial pode conviver com crédito mais acessível.

Se Flávio Bolsonaro vencer

O plano de Flávio propõe reformular as regras fiscais, reduzir a dívida pública, revisar tributos, retomar desestatizações e limitar crédito subsidiado pelo Tesouro. Prevê também abertura comercial e simplificação regulatória.

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Se as medidas forem consistentes e tiverem apoio político, podem reduzir a percepção de risco e o custo de financiamento da economia. Para concessionárias, haveria potencial de melhora no financiamento ao consumidor, no capital de giro e no custo de manter veículos em estoque.

Minha hipótese é de uma recuperação inicialmente dependente da confiança e, depois, da entrega fiscal. Uma reação favorável dos mercados pode aparecer antes da melhora nas vendas.

Um ajuste forte também pode enfraquecer a atividade no curto prazo, enquanto os efeitos sobre os juros demoram a chegar.

Reduzir tributos sem compensação fiscal, frustrar reformas ou ampliar conflitos institucionais pode inverter esse movimento. A queda da Selic depende do Banco Central e da inflação; o juro do financiamento também incorpora inadimplência e custos bancários.

O impacto no pátio

Nos dois cenários, câmbio valorizado, menor tributação ou mais concorrência podem reduzir preços de veículos novos. Isso ajuda a acessibilidade, mas pressiona o valor dos seminovos e a entrada representada pelo carro usado.

A loja pode vender mais e perder margem no estoque comprado antes da queda.

Locadoras podem ganhar com juros menores e compras mais baratas, enquanto enfrentam perdas no valor de revenda da frota. Na indústria, abertura comercial pode baratear componentes e aumentar a pressão competitiva. O resultado depende das regras e dos prazos.

Os potenciais vencedores são fabricantes com projetos elegíveis aos incentivos, se houver continuidade, e operações intensivas em financiamento, se o crédito baratear.

Entre os potenciais perdedores estão empresas dependentes de subsídios que sejam revistos e lojas com estoque caro, lento e financiado.

Usados mais acessíveis podem ganhar procura, embora o crédito siga decisivo.

O que acompanhar

Seis indicadores merecem atenção: juros futuros; custo efetivo e aprovação do financiamento; inadimplência; renda real e emprego; câmbio; e dias de estoque combinados à diferença entre preço de compra e preço efetivo de venda.

Minha tese para 2027 é de crescimento seletivo sob qualquer vencedor, condicionado à renda, ao crédito e à estabilidade das regras.

Na próxima semana, acompanharei as propostas fiscais e sua repercussão nos juros. No orçamento da concessionária, a melhora só deve entrar quando aparecer na aprovação de crédito, no giro e na margem.


Com vasta experiência e tradição no segmento automotivo, a família do Caporal está envolvida nesse mercado desde 1941, quando seu pai iniciou na indústria automobilística. Caporal atuou por 12 anos na logística e transporte de veículos, foi concessionário Honda de Motocicletas até 1993, e trabalhou diretamente em vendas, peças, serviços e administração. Atualmente, seu foco é aperfeiçoar processos para aumentar a fidelidade e satisfação dos clientes através de estratégias de vendas e marketing, tendo introduzido o conceito e os sistemas de CRM e BDC nas concessionárias brasileiras. Ocupa o cargo de CEO da MegaDealer e é Presidente da Auto Avaliar, além de ser parceiro estratégico da World Shopper.