A “magia” da baixa expectativa: como um resultado tão fraco levou uma ação a subir 9% na bolsa?

Expectativa era de que a Marcopolo registrasse resultados ruins - e ela foi confirmada; mas os números foram menos piores do que o esperado

Lara Rizério

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SÃO PAULO – Queda de 98% do lucro líquido, para apenas R$ 123 mil, baixa de 22,5% na receita líquida no Brasil, um Ebitda (lucro antes de juros, importações, depreciações e amortizações) em queda de 66,7% para R$ 500 mil, enquanto a margem Ebitda foi para 0,1%, ante expectativa de 2,4%. 

Quem viu esses números, esperava uma reação bastante negativa para as ações da Marcopolo (POMO4) na sessão desta terça-feira. Mas não foi isso o que aconteceu: as ações POMO4 fecharam com ganhos de cerca de 9% (+8,95%, a R$ 2,80) nesta sessão, com um volume negociado mais de quatro vezes a média dos últimos 21 dias (de R$ 51,4 milhões ante um volume médio de R$ 11,67 milhões). 

De acordo com os analistas de mercado, os números realmente vieram fracos. Mas então, por que esse movimento de alta da ação ocorre? Por um simples motivo: poderia vir ainda pior. 

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Segundo os analistas do Itaú BBA, os números foram fracos, mas acima do esperado, tendo como destaque positivo o mercado externo, apesar do câmbio desfavorável. Apesar da queda da receita no Brasil, o faturamento com exportação subiu 107%, totalizando R$ 203,8 milhões, e a receita no exterior cresceu 46,3%, para R$ 201 milhões. Na operação em geral, a receita subiu 29,5%, para R$ 554,6 milhões. 

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O Credit Suisse destaca que os números de lucro e margem Ebitda vieram abaixo do consenso. Porém, ao ajustar o Ebitda aos itens não-recorrentes, a margem ajustada seria de 5.1%, que é significativamente acima do consenso (2.8%).  Do lado negativo, os analistas do Credit destacam o mercado doméstico ainda fraco e a contribuição negativa da consolidação da Neobus, algo também destacado pelo Itaú BBA. 

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Apesar do mercado nacional ainda fraco, a XP Investimentos ressalta a perspectiva de evolução dos resultados da companhia ao longo do ano, devendo impulsionar as ações em bolsa. Os analistas ainda citam uma frase da própria companhia no relatório de divulgação do balanço para corroborar o cenário: “o mercado de ônibus no Brasil já mostra sinais de recuperação. As perspectivas de demanda, tanto no mercado interno como no mercado externo, mostram um viés positivo, refletindo em uma carteira de pedidos mais consistente, especialmente no segmento de rodoviários. Ainda assim, os resultados apresentados neste primeiro trimestre são reflexo de um mercado ainda abaixo dos níveis históricos e normais de produção de ônibus.” 

O Bank of America Merrill Lynch aponta para tendências mistas neste ano de 2017. Do lado negativo, a expectativa é de que os contratempos em meio à apreciação do real continue afetando as margens de exportação da companhia, além de prever uma operação ainda tímida no Brasil. Já no lado positivo, o programa de reestruturação de custos pode levar a uma diluição de custos fixos e alguma melhora nas margens. “Além disso, nós acreditamos que a empresa pode continuar ganhando participação de mercado em relação às companhias menores com um balanço mais fraco”, ressaltando os analistas Sara Delfim e Murilo Freiberger.  

Já o Bradesco BBI, que considerou o resultado pior do que esperado, apontou para dois fatores que, se confirmados, podem ajudar a aumentar o otimismo com a companhia: os planos para desligamento de uma planta e a estabilização do câmbio. 

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Analistas se alternam entre otimismo e ceticismo

Apesar de alguns sinais positivos e perspectivas de retomada, a maior parte dos analistas de mercado segue bastante cética com o case de investimentos da companhia. Os mais “otimistas”, Santander e BTG Pactual, mantêm recomendação neutra para os ativos, com preços-alvo respectivo de R$ 3,00 e R$ 2,80. Já o Credit Suisse, Bank of America Merrill Lynch e Bradesco BBI possuem recomendação underperform (desempenho abaixo da média) para as ações, com preços-alvo de R$ 1,70, R$ 3,80 e R$ 3,00, respectivamente. O Safra também tem recomendação underperform para os ativos, com preço-alvo de R$ 3,10.

De acordo com o analista Victor Mizusaki, do Bradesco BBI, a despeito das perspectivas mais positivas, ainda não há indicações de que a venda de ônibus subirá em 2017 (os últimos dados da Anfavea, de abril, mostraram uma queda de 6% na produção na base anual, ao contrário da produção de veículos leves e pesados, que subiu). Além disso, as margens devem seguir sobre pressão com a companhia lutando para fazer a “virada” da Neobus. Por fim, o valuation não é atrativo, com a ação sendo negociada a uma relação EV/Ebitda de 20 vezes versus 10 vezes de seus pares. No setor, a preferência do Bradesco BBI é por Iochpe-Maxion (MYPK3) e Randon (RAPT4), com recomendação outperform e preços-alvos respectivos de R$ 21,00 e R$ 6,00. 

Assim como o Bradesco BBI, o BofA também destaca o valuation pouco atrativo. Além disso, os analistas seguem avaliando que contratempos impactarão o lucro da companhia em 2017, o que impede uma visão mais otimista sobre a empresa. 

Desta forma, apesar de alguns sinais positivos, o mercado ainda segue “esperando para ver”, de olho principalmente se a recuperação doméstica, que ainda não veio, irá ocorrer. Se isso não acontecer, os olhos seguirão voltados para o exterior (e se ele ajudará o balanço da companhia como ajudou neste trimestre). 

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Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.