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SÃO PAULO – No último 12 de setembro, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) lançou a segunda oferta de cotas do PIBB (Papéis Índice Brasil Bovespa). O fundo (clique aqui para saber mais) pretende atrair a atenção do investidor de varejo para a Bolsa de Valores.
Conforme ressaltou Guido Mantega, presidente do banco, em entrevista coletiva, a aplicação no PIBB permite ao investidor de pequeno e médio porte “participar do mercado de renda variável, que, por definição, é variável”.
A afirmativa parece redundante. Mas sua exata compreensão poderia ter evitado a suspensão dos pedidos de reserva do fundo durante um dia, o 15 de setembro.
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Investimento tem riscos
Muitos investidores entenderam a opção de venda futura das cotas, assegurada pela aplicação, como uma garantia absoluta contra as eventuais desvalorizações do IBrX-50, o índice de referência do fundo. Preocupados, os gestores decidiram pausar o período de reserva e explicar o conceito.
Para melhor compreender as características de um fundo de renda variável como o PIBB, vale um exercício: compará-lo com a renda fixa, simulando carteiras onde os dois produtos tenham participações diferentes. Para tornar a análise mais simples, vamos considerar fundos DI como representantes da renda fixa.
As premissas da simulação
Algumas hipóteses foram estabelecidas com o intuito de simplificar a comparação, sem extrair dela as conclusões mais relevantes:
Calculando as expectativas do CDI segundo dados do relatório Focus, compilado pelo Banco Central, chega-se ao rendimento previsto de 16,24% para o fundo DI no período citado. Quanto à variação do PIBB, vamos considerar várias hipóteses: negativa em 40% ou 20%, nula, ou positiva em 20% ou 40%.
Cenário A – 100% renda fixa
O investidor alheio às oscilações do mercado acionário pode ignorar a oferta do PIBB e aplicar exclusivamente no fundo DI. Seu resgate, após doze meses, ficaria em R$ 1.394,88, refletindo a rentabilidade prevista de 16,24%.
Parece uma opção interessante a priori, mas sua real vantagem não é trivial. Exige um cálculo sobre os diversos custos de oportunidade (demais cenários). Isto é, qual seriam os diversos retornos em caso de outras alocações para a carteira?
Cenário B – 75% renda fixa; 25% PIBB
O investidor começa a arriscar no imprevisto. Seu valor de resgate dependerá das cinco hipóteses de variação do PIBB, conforme a tabela:
PIBB = -40% PIBB = -20% estável R$ 1.346,16 R$ 1.346,16 R$ 1.346,16 PIBB = 20% PIBB = 40% R$ 1.406,16 R$ 1.466,16
Cabe lembrar que, diante da desvalorização do PIBB, a opção de venda poderá ser exercida no período entre 25 de outubro e 29 de dezembro de 2006. Com isso, o aplicador poderá recuperar o valor nominal de entrada; em nosso caso, R$ 300.
Cenário C – 50% renda fixa; 50% PIBB
A divisão é meio a meio; risco e conservadorismo pesados de modo igual. O cenário C mostra os seguintes valores de resgate para o investidor:
PIBB = -40% PIBB = -20% estável R$ 1.297,44 R$ 1.297,44 R$ 1.297,44 PIBB = 20% PIBB = 40% R$ 1.417,44 R$ 1.537,44
As conclusões são similares àquelas tiradas do Cenário B. Porém, a variância entre cada uma das porcentagens para o PIBB é maior. Ou seja, mais retorno compensado por mais risco.
Cenário D – 25% renda fixa; 75% PIBB
Disposto a apostar no mercado de renda variável, o aplicador privilegia os Papéis Índice Brasil Bovespa em sua carteira. Os valores esperados de resgate são
PIBB = -40% PIBB = -20% estável R$ 1.248,72 R$ 1.248,72 R$ 1.248,72 PIBB = 20% PIBB = 40% R$ 1.428,72 R$ 1.608,72
Com o aumento da participação do PIBB na carteira, o investidor passa a encarar um cenário menos previsível, já que, se o mercado de ações tiver um bom desempenho, a rentabilidade desta carteira superará as anteriores, com o inverso ocorrendo no caso de estabilidade ou queda do IBrX-50.
Cenário E – 100% PIBB
O investidor abriu mão do retorno fixado e passou a apostar exclusivamente no PIBB. Esse cenário mostra o maior dentre todos os riscos, mas também dá margem aos melhores retornos.
PIBB = -40% PIBB = -20% estável R$ 1.200,00 R$ 1.200,00 R$ 1.200,00 PIBB = 20% PIBB = 40% R$ 1.440,00 R$ 1.680,00
Atenção para o custo de oportunidade
A constatação mais clara é de que a escolha da carteira depende do apetite por risco do investidor. Mesmo apesar da garantia oferecida pelo BNDES, que virtualmente elimina a possibilidade de perdas para aqueles investidores que exercerem a opção de venda em 2006, ainda existe o custo de oportunidade.
Por custo de oportunidade entenda-se o que você deixa de ganhar em relação ao cenário onde 100% estivessem investidos em renda fixa. Por exemplo, considerando que o PIBB feche os próximos doze meses sem variação, quem tivesse uma carteira com 50% em renda fixa e 50% no PIBB resgataria R$ 1.297,44. Ou seja, metade da carteira rendeu 16,24%, enquanto outra metade rendeu 0%, resultando em uma rentabilidade de 8,12%.
Já para quem investiu 100% em renda fixa, o resgate seria de R$ 1.394,88, correspondendo à rentabilidade de 16,24%. O custo de oportunidade da alternativa anterior, portanto, seria de R$ 97,44, ou 8,12%.
Alocação depende do apetite por risco
A lição que fica é: mesmo para quem vai exercer a opção de venda do PIBB após 12 meses, o produto pode não ser a melhor opção. Apesar de permitir ganhos maiores, a escolha da alocação de carteira entre renda fixa e PIBB vai depender do apetite por risco do investidor. Assim, mesmo apesar da garantia de não perder dinheiro, o custo de oportunidade, dentro de um contexto de juros elevados, pode fazer a diferença.
Em resumo, o PIBB é uma excelente oportunidade para quem quer investir em renda variável, já que permite a redução da possibilidade de perdas e o acesso a uma carteira bastante diversificada por um valor bastante baixo de investimento mínimo. No entanto, uma carteira em renda fixa pode apresentar melhor desempenho, com o risco de um possível custo de oportunidade devendo ficar claro para quem vai alocar parte de seus recursos no PIBB.