Paros e o outro país

Já pensou se Sâo Paulo fosse um país separado dentro do Brasil. Se a capital paulista fosse um país dentro de outro país?

Paulo Panayotis

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Pois a pequeno vilarejo de Coronos, na ilha Grega de Paros já. Invadida por Romanos, Venezianos, Persas e outros tantos Impérios, Paros sabe, e lembra, como foi. Uma tonelada de cultura em um pequeno ponto no meio do mediterraneo grego!

Seguíamos pelas montanhas encantadas da Ilha de Naxos, na Grécia. Estava indo gravar um lugar excepcional, o pequeno Vilarejo de Korono. Há séculos, este vilarejo, acreditem, era um País separado do restante da Grécia. Enquanto o carro deslizava pelo asfalto, subindo cada vez mais em direção aos Deuses do Olimpo, pensava… Um País separado da Grécia? Como seriam seus costumes? Seus hábitos? Sua comida?

Um “prefeito” mecanico 

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Encontrei o simpático “prefeito” do vilarejo meio sem querer. Na verdade, ele me encontrou. ?“Onde fica Koronos e o Restaurante da Matina?” Aqui mesmo, respondeu um sorridente grego em um macacão de mecânico de aviacao. Estaria vendo aquilo mesmo? ?Eu posso lhe ajudar no que precisar, disse Giorgios Bacalos, antes mesmo que eu continuasse. ?Bem sou jornalista, e procuro o centro da antiga cidade que uma vez foi um País independente do território helenico, disse eu em um grego com sotaque paulistano. Procuro também o restaurante Platza, da Chef Matina.?

Está falando com a pessoa certa

Bacalos abriu um grande sorriso de satisfação. “Pois está no lugar certo falando com a pessoa certa. Eu sou o “prefeito” da cidade e sei tudo a respeito desta historia.”?Foram várias horas de puro conhecimento histórico, de descobertas inacreditáveis , de cultura helenica. O prefeito era, na verdade , o representante da comunidade.?“Temos por aqui o melhor mármore do mundo para esculpir estatuas… ele está espalhado pelos grandes museus da terra como o Louvre , em Paris.” Histórias sem fim O homem não parava de falar . Quanto mais ele falava,mais impressionado eu ficava. Como poderia um homem do interior de uma ilha perdida no mediterrâneo grego ter tanto conhecimento assim? Meu assombro crescia junto com minha preocupação. Tinha um roteiro a cumprir e um horário a seguir mas o tal “prefeito” não parava de falar e, pior, falar coisas interessantes. Fiquei sabendo que a ilha foi o mais importante centro da civilização durante um período de mais de 3 mil anos(começando em 4mil AC e terminando em 1000 AC.

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Vários donos e um país independente

Nesta época, a ilha passou de mãos diversas vezes, foi um País independente , foi dominado pelos Venezianos, Romanos, Persas e Espartanos, entre outros povos.?Impressionante como o homem simples, vestindo macacão de mecânico que estava a minha frente, conhecia toda esta historia na ponta da língua. Quanto mais eu ficava agoniado com o tempo que corria ligeiro, mais ele despejava conhecimento ,orgulho e honra!? Perdi meus entrevistados, pensei comigo mesmo. Mas tinha vindo de tão longe , marcado com tanta antecedência. Não podia simplesmente me deixar ali sentado, embasbacado, ouvindo o “prefeito” de Naxos falar, falar, falar. ?Resolvi que iria gravar com ele. O arranquei de la em direção ao museu arqueológico de Koronos, instalado a apenas algumas dezenas de metros dali. Percorremos ruas asfaltadas com grandes blocos de mármore branco, enquanto todos, literalmente todos cumprimentavam meu “guia”.?Consegui entrevistar o homem(sempre gravo entrevistas em video) e com muita dificuldade me despedi dele. Tinha ainda um encontro marcado no restaurante Matina, a centenas de metros dali.

Banquete nas alturas

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Cheguei atrasado mas cheguei. Ainda sob o impacto de toda a historia que desfilava pela minha mente, me desculpei com a Chef Matina, a melhor e mais antiga da região. Contei a ela sobre meu recente encontro com o Sr. Bacalos enquanto ela ria meio envergonhada , meio divertida.?“Ele assim mesmo, disse ela com um sorriso maroto no rosto, tem grande orgulho de nosso vilarejo e quando percebe que alguém é de fora e tem interesse, ai ele não larga mais. Imaginem quando ele soube que eu era jornalista brasileiro, filho de grego e estava mostrando a Grécia pra os brasileiros. O que se seguiu foi um verdadeiro banquete em meio a oliveiras e figueiras no meio das montanhas de Koronos.

Restaurante Platsa

Comida orgänica desde sempre

Cabrito com molho de tomates, cordeiro ao molho de limão siciliano, legumes fresquissimos e saborosíssimos. Tudo colhido ali, no quintal da Chef Matina. ?Este dia, confesso, ficou na minha memória. Claro que tudo isso que relato aqui pode ser visto, em video, em poucos dias em meu portal www.oquevipelomundo.com.br Mas, mais do que isso, toda esta rica historia, este orgulho de um povo que mesmo em sérias dificuldades econômicas como atravessa a Grécia, insiste em passar de geração para geração, me deixou intrigado, perplexo.

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Por que nâo podemos ser assim?

Por que não podemos ser assim no Brasil, pensei mais uma vez comigo mesmo. ?Por que não podemos nos orgulhar de nosso passado, do presente que construimos e do futuro que deixaremos para nossos filhos? Excelentes questões que mereceriam respostas melhores ainda… Enquanto isso não acontece ao menos temos lições de vida de terras distantes, terras orgulhosas, terras dos Deuses.

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